"A escrita é muito solitária, o Clube das Mulheres Escritoras permite os encontros e a troca de ideias"

    Filipa Fonseca e Silva e Sara Rodi são co-fundadoras do Clube das Mulheres Escritoras. Nesta entrevista contam-nos os desafios da vida literária.

    Neste Dia Internacional da Mulher conversamos com as co-fundadoras do Clube das Mulheres Escritoras, Filipa Fonseca e Silva e Sara Rodi. 

    Como é que surgiu a ideia ou a necessidade de criar o Clube das Mulheres Escritoras?

    Filipa Fonseca e SIL (FFS) - O Clube surgiu quando conheci algumas escritoras que faziam parte da minha chancela, houve alguns encontros e começámos a falar. A escrita é sempre uma atividade muito solitária e nós mulheres, sobretudo, temos tantas outras vidas e compromissos e temos muito poucos convites para eventos e festivais. Era muito difícil conhecermos, encontrarmos, conversarmos. Só depois de as conhecer é que percebi que todas as coisas que achava que só aconteciam comigo - dos meus livros não estarem à venda, de não falarem da minha escrita - é que percebi que não era só comigo. Estávamos no mesmo barco e todas sentíamos essa discriminação que vem mais de mentalidade patriarcal e da ideia de que o escritor é o escritor e nunca a escritora. E portanto, as mulheres acabam por ter menos visibilidade.

    Depois de as conhecer sempre que conversávamos era sempre uma emoção e, por isso, achei que fazia sentido juntar mais escritoras e tornar isto um hábito, ou seja, fazer uns encontros todos os meses para falarmos destas coisas que nos inquietam e de temas, como por exemplo, por mais pessoas a ler, criar novos hábitos, os currículos escolares. Mas, aquilo que era para ser um encontro informal, uma vez por mês, entre escritoras e um grupo de WhatsApp, transformou-se em algo maior. Passamos a ter mil atividades, um Instagram, uma newsletter, um site e uma revista. Portanto, acho que o clube foi crescendo de uma forma que nem nós tínhamos imaginado inicialmente. Mostra também que quando as mulheres se juntam, coisas incríveis acontecem.

    O Clube das Mulheres Escritoras veio colmatar uma necessidade...

    Sara Rodi (SR) - Sim, há esta necessidade de falar e de mostrar as nossas preocupações de mulheres enquanto escritoras. Cada uma tinha a sua história. Há coisas muito específicas das nossas vivências e falo, por exemplo, da questão de conciliar trabalho com a maternidade, todas as tarefas extra que nós sabemos que as mulheres acumulam, onde é que é o espaço para a escrita, como é que nós podemos ir a um festival literário, como é que nos vestimos no evento.

    Agora, temos que dar visibilidade não só aos nossos livros, não só aos livros das mulheres escritoras, mas também a todas estas causas que nos unem, a todas estas mudanças que são importantes para a sociedade e que podem ser mais abrangentes. São para nós, enquanto mulheres escritoras, mas para as mulheres em geral. 

    As mulheres leem mais, compram mais livros. Como é que se explica que comprem menos livros escritos por mulheres?

    FFS - As mulheres chegaram muito mais tarde à literatura, à publicação, pelo menos, porque sempre houve mulheres a escrever, mas não tinham qualquer visibilidade, nem hipótese de publicar o seu trabalho. Só começou a acontecer com frequência no século XX e em Portugal, mais até na segunda metade do século XX. Portanto, quando se pensa em escrita, pensa-se num homem. É o homem que escreve, é o homem que sempre escreveu. São os homens que estudamos na escola, são os homens que saem nos exames nacionais. Aliás, no secundário não há uma única mulher nas leituras obrigatórias. Temos a Sophia de Mello Breyner no primeiro ciclo, segundo ciclo e terceiro ciclo e depois não temos ninguém. Temos um vazio imenso. Tudo isto faz com que as pessoas não tenham presente o que as mulheres escrevem. E quando escrevem temos o 8 ou 80: ou são catalogadas como uma literatura já muito erudita e, portanto, difícil como Agustina ou Lídia Jorge, ou são catalogadas como literatura light, cor-de-rosa, feminina, romance feminino, literatura feminina, como se a literatura tivesse género. E, portanto, todas estas coisas, não é só uma, todas estas coisas fazem com que, na cabeça das pessoas, inconscientemente, um bom livro é um homem que escreve, as mulheres escrevem romances, escrevem coisas mais fáceis, mais ligeiras, mais de entretenimento, mas quando se quer um bom livro são os homens que assinam. E ainda há a questão da rivalidade entre as mulheres, que também é uma construção do patriarcado. Aliás, nós fomos a prova de que as mulheres não são rivais e quando se juntam podem ser realmente irmãs. Mas durante séculos as mulheres foram ensinadas a invejar outras mulheres, a ter cautela contra as mulheres.

    No Clube há escritoras mais conhecidas, com mais livros publicados, outras menos, e há uma entreajuda. Há conselhos que dão umas às outras. 

    SR - Sim, e damos conselhos em coisas simples como os contratos. Como é que fazemos com as capas? Havia algumas autoras que nem sabiam que se podia cobrar para ir a um determinado sítio. 

    Hoje em dia já não há as tertúlias, o café literário, onde os autores se encontram, portanto, não há essa partilha de conhecimentos. Como é que fazemos com as redes sociais? Devo estar no Instagram, não devo estar no Instagram.

    As mulheres não recebem muitos prémios em Portugal, por exemplo apenas uma mulher recebeu o Prémio Leya.

    SR - É verdade, essa também tem sido uma discussão nossa. Portugal é muito pequenino, toda a gente se conhece e, portanto, há livros que nós já sabemos que vão ganhar determinado prémio, as pessoas que fazem parte do Júri muitas vezes são as mesmas em determinados prémios. Isso levanta algumas questões, por exemplo, s

    será que as mulheres têm esse tempo e essa disponibilidade nas suas vidas multifacetadas para se sentarem a escrever um livro de grande folego para concorrer a um prémio sem fazer ideia nenhuma se vão ganhar ou não? 

    FFS - Estou mais inclinada para o facto de ser sempre o mesmo género de júri, porque se formos ver os júris dos prémios mais conceituados são sempre os mesmos.

    Ou seja, são pessoas que gostam daquele tipo de livro, daquele género literário. 

    E qual é o papel do Plano Nacional de Leitura?

    SR - Há um vazio tremendo de mulheres e há um vazio tremendo da atualidade. Os nossos filhos, os nossos leitores mais jovens, crescem num vazio enorme, só a dar, de facto, os clássicos, a história da nossa literatura, regra geral de forma bastante aborrecida, com muita sintaxe, muita semântica, muita gramática. Portanto, se não são leitores, dificilmente através do nosso currículo escolar, o serão. O Plano Nacional de Leitura tem trazido um conjunto de projetos muito interessantes, ou seja, levar outro género de livros às escolas, diversificar aquilo que pode ser feito. 

    FFS -A verdade é que o PNL continua a perpetuar todas as coisas que falámos. No outro dia, dei-me ao trabalho de contar, porque fui ver as leituras sugeridas que deram ao meu filho do oitavo ano e só havia uma mulher. E adivinhem quem era? A Sophia de Mello Breyner. E, portanto, de todos os autores que lá estavam nos sugeridos, só um é que estava vivo o que também mostra a desconsideração que existe pela literatura contemporânea, como se tudo o que interessa na vida morreu no século XX e já estamos a um quarto do século XXI. As mulheres que existem são obras repetidas, por exemplo, se contarmos em termos de números de livros, por exemplo, uma aventura aparece dez vezes, por isso é só podermos contabilizar uma autoria, e são sempre os mesmos géneros de livros que aparecem, as mesmas autoras em diferentes registros, mas são sempre quatro ou cinco autoras clássicas.

    É importante que, embora exista um PNL para nos sugerir de livros, ainda há um longo caminho para fazer, nomeadamente não só com as mulheres, mas com os autores contemporâneos e os autores portugueses. 

    Clube das Mulheres Escritoras