Acampada de Lisboa decide não montar tendas junto ao parlamento
O movimento irá continuar as ações regulares na praça do Rossio, a partir de quarta-feira.
A organização da Acampada de Lisboa decidiu esta noite que não irão ser montadas tendas junto ao parlamento, considerando que não existem condições de segurança no local, onde permanecem centenas de manifestantes que participaram no protesto pelo direito à habitação.
A decisão foi anunciada por Priscila Valadão pelas 23h00 desta terça-feira, em frente à Assembleia da República, acrescentando que o movimento irá continuar as ações regulares na praça do Rossio, a partir de quarta-feira.
Milhares de pessoas encheram desde o final da tarde o largo em frente à Assembleia da República, em Lisboa, e as ruas adjacentes, num protesto pelo direito à habitação, que juntou o movimento que organiza a Acampada de Lisboa, no Rossio, e a plataforma Casa Para Viver e decorreu sem incidentes.
“Quem fez um 25 de Abril pode ser que faça outro”, salientou a ativista, admitindo que a organização da acampada está também a aprender e que está sempre “a tentar fazer melhor”.
A manifestação pelo direito à habitação começou pelas 18:30, mas continuava a mobilizar centenas de pessoas cinco horas depois junto à Assembleia da República, agora maioritariamente jovens, que pelas 23:30 ainda cantavam, dançavam e gritavam palavras de ordem.
“Fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre” e “violência policial é herança colonial” eram algumas das palavras proferidas junto à escadaria da Assembleia da República, onde dezenas de polícias continuavam a vigiar os manifestantes.
A organização da Acampada de Lisboa indicou que pretende desmobilizar do local antes das 00:30.
Ao longo da noite foram-se realizando vários concertos improvisados de artistas solidários com a causa, como Marisa Liz, que cantou uma versão da canção de Zeca Afonso “A morte saiu à rua”.
Vários manifestantes chamados a discursar na iniciativa deixaram também um apelo à realização de uma greve geral pelo direito à habitação e o aumento do custo de vida, depois de esta semana a CGTP já ter admitido convocar uma nova paralisação.
Na manifestação foram também feitos vários apelos à participação de agentes das forças de segurança, como forma de solidariedade: “És cidadão antes de ser polícia”, disseram.
A manifestação de hoje ocorreu no dia em que começou no parlamento a discussão na generalidade da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2027 (OE2027).
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.
Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.
O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação “e nunca à violência”, afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.
