Afastada a hipótese de falta de combustível na aviação
Associação Internacional de Transporte Aéreo afasta possibilidade de escassez nas viagens que partam da Europa.
A IATA não prevê escassez de combustível para aviação na Europa durante o verão, apesar dos alertas anteriores sobre possíveis cancelamentos, mas admite desafios se a crise energética se prolongar e antecipa pressão sobre os preços dos bilhetes.
“Para já, parece que o verão decorrerá sem problemas em termos de acesso ao abastecimento de combustível”, afirmou à Lusa o vice-presidente regional da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) para a Europa, Rafael Schvartzman.
Em entrevista, o responsável sublinhou que a avaliação atual aponta para “capacidade suficiente na Europa para o verão”, ainda que as previsões tenham um horizonte limitado.
“A previsão ou avaliação é fiável num horizonte de quatro a seis semanas. Por isso, estamos constantemente a avaliar a situação com a nossa equipa, mas também com os fornecedores de combustível”, explicou.
Em abril, a IATA tinha admitido a possibilidade de cancelamentos na Europa até ao final de maio, caso se agravassem os constrangimentos no abastecimento de combustível de aviação, num contexto de pressão sobre as cadeias internacionais de fornecimento e de incerteza associada ao conflito no Médio Oriente.
Questionado sobre se esse risco se materializou, respondeu que, “nesta fase”, a situação melhorou face ao período inicial de maior incerteza.
“No início dos conflitos no Médio Oriente havia obviamente níveis elevados de incerteza. Há alguns aspetos que, digamos, melhoraram”, afirmou.
Entre esses aspetos, o responsável apontou a possibilidade de recorrer a combustível de aviação proveniente dos Estados Unidos, onde é usado sobretudo o Jet A, semelhante ao Jet A-1, padrão na maioria das operações internacionais, embora com diferenças técnicas, nomeadamente no ponto de congelação.
“A EASA [Agência Europeia para a Segurança da Aviação] já emitiu uma nota com informação de segurança, no qual dá orientações sobre a utilização de Jet A-1 proveniente dos EUA”, disse.
Rafael Schvartzman acrescentou que os Estados Unidos, enquanto exportador, têm capacidade para fornecer combustível a partir da Costa Leste, mas indicou que, tanto quanto sabe, essa solução ainda não foi necessária.
“Hoje, tanto quanto sei, ainda não houve necessidade de importar Jet A. Mas essa é provavelmente uma variável que está a ser considerada para o futuro”, afirmou.
Segundo o responsável, esta alternativa poderá vir a ser equacionada se as avaliações sucessivas apontarem para maiores dificuldades no abastecimento, sobretudo mais perto do final do ano.
“Potencialmente no último trimestre do ano, poderá haver alguma escassez”, admitiu, ressalvando que “é ainda muito cedo para dizer” se tal cenário se confirmará.
“Efetivamente, poderá ser necessário importar algum Jet A para compensar ou para garantir que há combustível suficiente”, acrescentou.
Sobre a diferença entre os alertas de abril e a avaliação atual, apontou a existência de reservas obrigatórias na União Europeia e a adaptação de alguns países com capacidade de refinação.
“Existe na UE uma obrigação de reservas, e isso ajuda, sem dúvida”, afirmou, referindo que alguns países conseguiram também aumentar os volumes de produção de Jet A-1.
“Espanha está relativamente bem posicionada em termos de capacidade de refinação”, exemplificou, acrescentando que essa capacidade pode ajudar a abastecer outros países europeus.
Apesar de afastar, para já, o risco de falta de combustível no verão, a IATA alerta para o impacto do aumento dos custos nos preços das viagens aéreas.
Rafael Schvartzman disse que o combustível, que anteriormente representava cerca de 25% a 30% dos custos operacionais das companhias aéreas, pesa agora mais de 40%.
“Hoje, estimamos que esse peso esteja acima dos 40%, podendo chegar a 45% ou 46% dos custos operacionais. Portanto, isso terá definitivamente um impacto direto nos preços”, afirmou.
O responsável reconheceu que parte do aumento pode ser absorvido pelas companhias, nomeadamente através de mecanismos de cobertura de risco (‘hedging’), mas avisou que o efeito nos bilhetes é inevitável.
“Isso irá definitivamente afetar os preços dos bilhetes”, disse, acrescentando que a expectativa é que o impacto seja “mais prolongado do que de curto prazo”.
Questionado sobre se os preços já estão a subir, o responsável respondeu: “Penso que já estão a aumentar. Provavelmente, sim”.
Além do combustível, a forte procura para o verão está também a pressionar os preços, sobretudo em destinos europeus, segundo Rafael Schvartzman.
“Em vez de irem para o Extremo Oriente ou fazerem voos de longo curso para a Ásia, muitos estão a decidir ficar dentro da Europa”, afirmou.
Para os passageiros que já reservaram férias na Europa, Rafael Schvartzman deixou uma mensagem de tranquilidade, embora com apelo à preparação.
“Eu não estaria preocupado”, disse. “Claro que é preciso manter-se bem informado”, recomendou.
Segundo o vice-presidente regional da IATA, os passageiros devem acompanhar as comunicações das companhias aéreas e dos aeroportos, confirmar o estado dos voos antes de se deslocarem para o aeroporto e preparar-se para terminais mais congestionados nos períodos de maior procura.
O responsável destacou também a necessidade de especial atenção por parte dos passageiros de fora da União Europeia, devido à implementação do novo Sistema de Entrada/Saída da UE, conhecido pela sigla inglesa EES, que substitui os carimbos nos passaportes por registos digitais e pode aumentar os tempos de processamento no controlo de fronteiras.
“É importante que as autoridades mantenham os passageiros bem informados”, afirmou, insistindo que, apesar dos desafios de capacidade e fronteiras, não há motivo para “criar pânico”, destacando o esforço de companhias aéreas, aeroportos, gestores de tráfego aéreo e autoridades para reduzir o risco de perturbações durante o verão.
