Arthur Harari e o enigma da identidade em "A Desconhecida"

    O filme do realizador francês chega às salas portuguesas para refletir sobre a troca de corpos explora identidade, solidão e transformação.

    Esta quinta-feira estreia nas salas de cinema portuguesas o filme "A Desconhecida", de Arthur Harari.

    A longa-metragem acompanha o fotógrafo David Zimmerman que vê a vida virar do avesso após acordar no corpo de Eva, uma desconhecida com quem se envolveu. Enquanto procura recuperar a identidade descobre que o seu corpo já é habitado por outra pessoa. Harari transforma o mistério numa reflexão sobre aquilo que nos define enquanto indivíduos: a identidade, o género, a maternidade e a solidão.

    O filme fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes 2026 e está entre os cinco títulos pré-selecionados para representar a França na categoria de Melhor Filme Internacional na 99.ª edição dos Oscars.

    Este artigo contem spoilers sobre "A Desconhecida".

    O argumento do filme é baseado na banda desenhada "Le Cas David Zimmerman" (numa tradução livre, "O caso de David Zimmerman"), escrita por si e Lucas Harari. A adaptação ao cinema esteve sempre nos planos?

    Sim. Quando o meu irmão me falou da ideia, já tinha começado a escrevê-la, embora ainda não a tivesse terminado. Achei-a imediatamente muito interessante e imaginei logo que pudesse dar origem a um filme. Acabei por lhe propor que escrevêssemos a história em conjunto e que depois a adaptasse para filme.

    Noutra entrevista admitiu que o processo de casting aconteceu quase que em simultâneo com a escrita. O que motivou essas escolhas?

    A verdade é que a Léa Seydoux esteve presente desde o início. Quando a vi no filme 'France', de Bruno Dumont, fiquei impressionado com a sua interpretação. Achei-a excecional. Isso deu-me vontade de trabalhar com ela nesta história. O projeto nasceu tanto da ideia do meu irmão como do desejo de colaborar com a Léa Seydoux. Por isso, escrevi o filme a pensar nela.

    A escolha do protagonista masculino foi mais complexa. Era um papel particularmente exigente e vimos muitos atores antes de encontrar a pessoa certa. Acabou por ser o Niels Schneider.

    David não consegue regressar ao seu corpo, apesar de permanecer tão perto dele. Já Malia nunca volta a encontrar o seu. O contraste foi intencional?

    Essa diferença está no centro do filme. David consegue ver o seu próprio corpo fora de si, enquanto Malia nem sequer tem essa possibilidade. Os dois vivem a experiência de estar presos num corpo que não é o seu, mas fazem-no de formas muito diferentes.

    A forma como reagem a essa situação é essencial para a narrativa. Uma das personagens acaba por aceitar, ou pelo menos aparenta aceitar, a nova condição. A outra nunca consegue fazê-lo.

    No início, David surge como alguém solitário, perdido na própria realidade. Depois da mudança, para lá da transformação física, surge uma nova pessoa?

    O filme explora precisamente o impacto que esta experiência tem na forma como as personagens se percecionam. Antes de tudo acontecer, David já estava de certa forma preso à identidade, ao lugar e ao corpo.

    Quando passa para outro corpo, isso obriga-o a olhar para si próprio de maneira diferente. É difícil medir exatamente essa transformação, mas pode funcionar como um novo começo, uma libertação. O facto de deixar de estar preso àquilo que era abre-lhe a possibilidade de recomeçar.

    Há duas grandes questões deixadas em aberto. Nunca sabemos o que provoca esta troca de corpos e o final parece abrir um conjunto infinito de possibilidades. Porque optou por deixar as perguntas em aberto?

    A ideia de não responder a essas questões está na origem do projeto.

    As personagens querem respostas. Querem perceber o que aconteceu e recuperar a sua situação original. Mas o facto de nunca chegarem a compreender verdadeiramente o que aconteceu obriga-as a enfrentar a situação de forma mais profunda.

    Se existisse uma explicação clara, como acontece frequentemente no cinema fantástico, essa explicação acabaria por ocupar todo o espaço. Para mim, isso seria uma forma artificial de evitar as implicações mais profundas da história. Penso muitas vezes em Kafka, em 'A Metamorfose' não existe uma explicação para o acontecimento central. E é precisamente essa ausência de resposta que nos obriga a lidar com aquilo que está a acontecer.

    Queria colocar o espectador exatamente na mesma posição das personagens. Não existe uma solução escondida nem uma chave para resolver o mistério. Existe apenas uma nova realidade com a qual se tem de aprender a viver. É um pouco como uma doença. Podemos descobrir a sua origem, mas isso não altera a realidade que temos pela frente. Continuamos a ter de lidar com ela.

    O facto de a metamorfose acontecer durante o ato sexual pode relacionar-se com a ideia de  la petite mort (pequena morte)?

    Sim, pode certamente ser interpretado dessa forma. A sexualidade sempre esteve associada, de algum modo, à possibilidade da morte e do desaparecimento. A ideia de la petite mort refere-se precisamente a uma espécie de suspensão momentânea daquilo que somos durante o clímax sexual. É quase como uma tentativa de nos dissolvermos no outro. Essa ideia de dissolução tem inevitavelmente alguma relação com a ideia da morte.

    No entanto, não foi uma escolha intelectual nem uma referência psicanalítica deliberada. A ideia foi do meu irmão e, desde o primeiro momento, pareceu-nos extremamente forte. A possibilidade de trocar de corpo com outra pessoa durante o orgasmo parecia-nos quase lógica, porque é o momento em que sentimos estar mais próximos de uma fusão com o outro. Mas essa fusão nunca acontece verdadeiramente. No fim de contas, continuamos a ser quem somos.

    Há também uma dimensão de solidão nessa ideia. É precisamente no momento em que acreditamos estar mais próximos de outra pessoa que percebemos que nunca poderemos sair verdadeiramente do nosso próprio corpo.

    A questão da identidade ocupa um lugar central na sua obra. Porquê?

    Não sei se tenho uma resposta para isso... Provavelmente porque, como toda a gente, também eu não sei realmente quem sou. E suspeito que essa seja uma pergunta sem resposta definitiva.

    Talvez o meu interesse por esse tema venha da forma como descobri o cinema. Era muito novo, tinha cerca de nove anos, e senti imediatamente o poder que um filme tem de nos fazer viver através de outra pessoa. Durante algumas horas esquecemo-nos de nós próprios e identificamo-nos com alguém que está no ecrã. É evidente que nunca deixamos de ser quem somos. Mas a intensidade dessa experiência marcou-me profundamente. Também coincide com uma idade em que começamos a compreender que somos indivíduos separados dos outros, incluindo dos nossos pais e da nossa família. Talvez o facto de ter descoberto o cinema nessa fase da vida explique porque é que a questão da identidade continua tão presente no meu trabalho.

    Não tenho a certeza de que algum dia venha a compreender totalmente porque sinto necessidade de contar histórias para explorar essa pergunta.