As mulheres que resistiram no campo: "A violência não tinha o mesmo valor sobre aqueles corpos"

    Rita Rato leva-nos até aos campos do Sul, onde as mulheres assalariadas a trabalhar nos campos enfrentaram a ditadura, a repressão e a pobreza, enquanto lutavam por melhores salários e melhores condições de trabalho.

    A resistência antifascista e a luta pelos direitos dos trabalhadores durante a ditadura, também passa pelo campo. Entre as marchas da fome de maio de 1944 e preparação das greves do 1.º de Maio de 1972, centenas de mulheres viveram de perto a repressão da PIDE. A história destas mulheres é trazida por Rita Rato. Deputada à Assembleia da República entre 2009 e 2019 e diretora do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade entre 2020 e 2026, é também responsável pela curadoria da exposição “Mulheres e Resistência - Novas Cartas Portuguesas e outras lutas”.  

    Como é que era a vida das trabalhadoras rurais durante a ditadura? 

    As mulheres trabalhavam, de sol a sol, naquilo que o Saramago chamou de "bicho da noite". Saíam de casa de noite e voltavam a casa de noite, o que marca não apenas as condições de vida de um povo do Sul do Ribatejo e do Alentejo, dos Campos do Sul, mas toda uma forma de estar, toda uma cultura e identidade que é muito marcada pela escassez, pela fome, pela miséria e que, sem compreender isso, é difícil compreendermos porque é que o povo alentejano esteve tantas vezes na linha da frente da resistência à ditadura.

    Toda a cultura que é tão rica do Alentejo - musical, etnográfica, gastronómica - está muito ligada a uma história de escassez, de míngua. A história destas mulheres era ainda mais grave porque as suas vidas eram marcadas não apenas pela escassez, mas por um cotidiano de um regime fascista que não lhes reconhecia direitos. À luz da Constituição de 1933, as mulheres estavam excetuadas do princípio da igualdade, tendo em conta a sua função de maternidade, ainda mais em contextos muito difíceis marcados, por estas vivências. Um contexto de grande escassez e de grandes dificuldades,  podemos mesmo dizer dificuldades de sobrevivência. Muitas crianças morriam por subnutrição ou desenvolviam outro tipo de doenças. Até hoje a genética continua a estudar estas questões relacionadas com o Sul e com o Alentejo, em particular, porque deixou marcas profundas em muitas gerações.

    É muito interessante percebermos também como é que neste contexto de muitas dificuldades, de muita miséria, de muita fome, de más condições de habitação - porque é um território marcado por grandes amplitudes térmicas, onde são verãos muito quentes e invernos muito rigorosos - estas pessoas têm memórias de grandes momentos de resistência à ditadura. Nas dificuldades estas pessoas encontraram muitas vezes uma certa inevitabilidade para a luta. Não tinham alternativa a não lutar. Sabemos que não é assim, infelizmente, que quem teve a coragem de enfrentar a polícia política e lutar por melhores condições de vida eram pessoas de facto de uma coragem imensa, mas ao mesmo tempo uma certa forma de ver a vida, uma não resignação com essa escassez e, portanto, temos que lutar pela nossa sobrevivência e, por isso, a palavra de ordem que estas mulheres e que estes homens gritavam eram: "trabalho, pão e paz". A primeira necessidade era o trabalho para poder ter pão e paz. Muitas das lutas, como as marchas da fome, aconteceram ainda antes do fim da Segunda Guerra Mundial. A questão da paz também estava associada com o fim da guerra e o facto de Portugal estar confrontado com o racionamento de comida e que atingia todas as pessoas, mas as mais pobres de forma mais particular. 

    Neste ambiente rural, onde as pessoas recebiam muito pouco pelo que faziam, com trabalho muito instáve e sazonal, é um povo que estava muito limitado. As mulheres recebiam inclusivamente menos do que os homens independentemente da carga de trabalho que fizessem e levavam as crianças para o campo. 

    É muito interessante também percebermos isso tudo que a Mariana diz e a questão do latifúndio.

    O latifúndio são grandes herdades e há um livro extraordinário que nos ajuda a compreender isto. O "Levantado do Chão" do Saramago, explica esta questão de forma muito própria na sua linguagem e a partir da história de uma família de Lavre, que pertence a Montemor-o-Novo, com quem ele viveu quando escreveu o livro. A questão do latifúndio é uma geografia da escassez e de desigualdade por natureza. As pessoas não tinham terra. Muitas vezes, a história sobre o latifúndio do Sul e sobre o minifúndio do Centro e do Norte do país ajuda a compreender quando ouvimos algumas pessoas falar sobre o período antes do 25 de Abril. Dizerem "Eu não tinha o que comer, mas tinha sempre batatas e couves", mas às vezes ouvimos "No Sul, as pessoas não tinham terra para plantar batatas e couves e, portanto, não existia comida". Há um romance também muito impressionante do Manuel da Fonseca, que se chama "Seara de Vento" - adaptado ao cinema pelo Sergio Tréfaut, "Raiva" - em que a questão da fome e a inexistência de terra e do acesso à terra para cultivar alimentos de subsistência é muito impressionante, com uma representação incrível da Isabel Ruth, que faz o papel da avó. Ajudam-nos muito através também da cultura e da arte a compreender estes territórios e estas vivências.

    A vida destas mulheres era marcada também pela sazonalidade, por salários muito baixos. Aquilo que se recebia não dava pra viver. A história da gastronomia no Alentejo é feita disso. É feita da cultura de ervas que nascem de forma daninha e que têm que ser utilizadas na alimentação. É uma forma de sobrevivência, ao mesmo tempo marcadas por uma grande repressão. Há um contexto de uma grande repressão econômica, as pessoas viviam muito mal, e depois há a repressão política. Existem fenômenos muito curiosos de territórios no Sul, Ribatejo e os Campos do Sul, que foram muito férteis na construção de pessoas que foram determinantes na história da resistência à ditadura. O Couço é uma terra que teve muita gente presa, homens e mulheres - terá sido das terras que teve mais gente presa. Também Baleizão, terra de Catarina Eufémia, de Mariana Janeiro, de Francisco Miguel. Pias, Vale do Vargo - no concelho de Serpa -, Montemor-o-Novo, Lavre e outras aldeias. Terras onde inclusive, por existir tanta resistência, a GNR sediava postos da GNR. Um antigo preso político conta que quando criaram um posto da GNR em Pias, lhe terão dito "Então, agora já vamos ter aqui um posto da GNR na aldeia. Então, o que é que acha disso?" ele terá respondido de forma irónica "Então, assim como assim, para levar porradas, excusamos ir a Serpa, levamos logo aqui".

    A repressão acompanhou sempre a resistência. Estas são terras onde existem registos de resistências populares dos trabalhadores agrícolas ainda no período da Primeira República e antes disso. Estas terras, criaram pessoas que tiveram muita influência e até aderiram ao Partido Comunista Português. Tornam-se figuras centrais do aparelho clandestino do PCP. O Francisco Miguel terá sido dos homens que teve mais anos preso, entre os quais no Tarrafal. A Mariana Janeiro e as mulheres do Couço, que merecem ser nomeadas: a Maria Custódia Chibante, a Idalina Feliciano, a Maria Rosa Viseu, a Olímpia Brás, a Cesaltina Feliciano e a Custódia Dias. Foram mulheres que foram presas e que pela sua condição de trabalhadores agrícolas e de pessoas que vinham de origens muito humildes ficaram mais expostas à violência da PIDE, infelizmente, do que outras pessoas que as famílias faziam de tudo para conseguir contacto com as autoridades e um advogado para acompanhar os presos. Felizmente, essas famílias conseguiram.

    Aliás, é muito interessante, pelo lado obviamente infeliz e dramático, perceber que alguns dos trabalhadores agrícolas foram assassinados nos postos da GNR. Nem chegaram a vir a Lisboa. Nem tinham dignidade política na existência daqueles corpos para vir a Lisboa para ser torturados no António Maria Cardoso. O Germano Vidigal, a quem o Saramago dedica "Levantado do chão", é torturado até à morte no posto da GNR de Montemor. A Catarina Eufémia é baleada com três tiros em Baleizão. São muitas camadas para perceber como é que a arbitrariedade e a violência da PIDE se expunha sobre a sociedade como um todo, mas também sobre estas pessoas. Hoje não temos tempo para falar sobre as questões da violência colonial e a forma como a PIDE exercia a sua autoridade e sua violência nas antigas colônias sobre as pessoas negras. É muito marcante perceber como é que a história do Alentejo e da resistência está muito marcada por estas mulheres, que estavam sempre na linha da frente da resistência aos protestos.

    O episódio que culmina no assassinato da Catarina Eufémia é um exemplo disso, a 19 de maio de 1954.  Um período em que começa a haver muito trabalho no campo. Muitas vezes quando os trabalhadores estavam já muito organizados e lutavam pelo aumento dos salários, os agrários e os donos das grandes propriedades recorriam a trabalhadores de outras regiões para fazer este trabalho. Esta estratégia é muito antiga, como podemos ver, hoje são os trabalhadores migrantes que servem este propósito. A Catarina Eufémia e outras mulheres acompanhadas com os filhos, porque não havia com quem os deixar, dirigiram-se a esses trabalhadores para que eles não começassem a trabalhar e se juntassem ao protesto deles para aumentar os salários. É nesse momento que a Catarina Eufémia é baleada com três tiros e acaba por morrer logo ali no campo.

    É muito irónico e muito triste que o assassinato da Catarina Eufémia, depois documentado num Avante! clandestino, tem uma gravura que representa o assassinato da Catarina Eufémia. Não houve fotografias, como é óbvio, quando se teve que representar o assassinato desta trabalhadora José Dias Coelho, que era um artista plástico e estava na clandestinidade, desenha aquilo que terão descrito e que está no Museu do Neo-Realismo da Catarina Eufémia deitada no chão. O Zeca Afonso dedica uma música, o Cantar Alentejano, à Catarina Eufémia. É uma forma também de denunciar aquilo que aconteceu porque a censura obviamente não permitia que estas notícias circulassem.

    Creio que há registro de uma notícia no jornal República que diz "Morreu uma camponesa" que faz referência a isso. É muito irónico que José Dias Coelho, que fez a gravura que denuncia no Avante! clandestino o assassinato da Catarina Eufémia, vai ser também assassinado pela PIDE, em Lisboa numa rua ali na zona do Calvário que hoje se chama Rua José Dias Coelho em homenagem ao pintor e a quem também Zeca Afonso vai dedicar uma música, 'A Morte saiu à rua'. Ontem estava a fazer uma visita no museu a uma turma do 9.º ano e estava lhes a perguntar se conheciam a música "A Morte saiu à rua". Eles não conheciam e eu disse: "Então, vão ouvir a música pra tentar perceber o que é que vão sentir quando ouvirem essa música e se isso vos vai fazer alguma ligação com o que nós vimos aqui no museu". É muito impressionante nós percebermos que esta memória sobre a resistência é uma memória muito restrita e, portanto, a importância da preservação e da partilha da memória é algo que é fundamental para podermos valorizar as conquistas da democracia e valorizar a importância de vivermos em liberdade.

    Vamos até a Baleizão. Quem era Catarina Eufémia?

    Em Baleizão, pela presença de figuras e a ligação a pessoas muito importantes naquela zona, existe uma ligação muito presente, existem células e organizações do Partido Comunista Português. Muitas vezes, nem os próprios familiares sabiam que as pessoas pertenciam ao PCP, como uma forma de proteger as famílias porque em casos de prisão a PIDE queria obter informações sobre estas pessoas. Sabemos que a Catarina Eufémia teria ligações e sabia-se ainda mais nesta fase que tinham existido as marchas da fome e vários protestos pelo aumento dos salários dos trabalhadores agrícolas, que existia um movimento que tinha a organização do PCP nesse apoio pelo aumento das jornas. A Mariana Janeiro foi outra mulher que foi barbaramente torturada e era também de Baleizão, tinha ligações e conhecia Catarina Eufémia. Francisco Miguel também era de Baleizão. Sabia-se que de alguma forma os protestos tinham o apoio de um partido que era clandestino e sobre o qual não se podia falar. O PCP foi o único partido até final dos anos sessenta que, de forma organizada, resiste na clandestinidade depois, são fundados outros partidos como a FAP, a partir de uma dissidência do PCP, e as Brigadas Revolucionárias, mas até então esse era o único partido. Havia imprensa clandestina que era distribuída e, portanto, havia dentro da imprensa clandestina, um boletim do PCP que era "O Camponês", dirigido aos camponeses, que muitas vezes tinha que era sempre a imprensa clandestina distribuída com muito cuidado.

    Começou a aparecer a partir dos anos 60, com o início da guerra colonial, são criadas duas emissoras clandestinas de rádio, uma que funciona a partir da Argel, que era a Rádio Voz da Liberdade e outra a partir de Bucareste, que era a Rádio Portugal Livre, que são emissoras que davam notícias sobre a guerra colonial e os presos políticos que as pessoas começam a ouvir clandestinamente a rádio para tentar sintonizar e saber algumas novidades. É muito curioso, alguém me disse que no distrito Beja, que a polícia tinha o levantamento dos nomes das pessoas que tinham rádios em casa, tinham licenças e a polícia acompanhava isso de muito perto para perceber quem era suspeito de poder estar a organizar de forma subversiva a audição de rádios clandestinas. Até hoje há várias pessoas que se recordam de ouvir a rádio clandestinamente e contam-nos vários truques: ter que fechar muito bem as casas, porque os vizinhos podiam denunciar à polícia que alguém ali estaria a ouvir rádio clandestina; colocar um copo de água em cima do rádio... Existe uma memória ainda viva sobre o ato de ouvir a rádio e, neste caso, estas rádios clandestinas como uma forma de resistência.

    A luta dos trabalhadores agrícolas conhece em 1962 a consagração das oito horas de trabalho, porque até aí era trabalho de sol a sol. Há uma organização política do PCP no acompanhamento a estes processos. Há uma figura também muito importante, a Maria Lourenço Capecinha, que foi uma mulher que esteve presa na altura companheira do António Gervásio. Eram trabalhadores agrícolas, aderiram muito cedo ao Partido Comunista Português. O pai dela já tinha estado preso, o companheiro Gervásio também foi preso. Tinham sido trabalhadores agrícolas, são da zona de Montemor, e conheciam também muito bem estes contextos. Quando perguntaram à Maria Lourenço Capecinha se ela tinha noção dos perigos que corria, ela respondeu uma coisa muito interessantei: "Nós pensávamos nisso dia e noite. Preparávamo-nos para isso. A qualquer momento podia acontecer". Revela uma consciência muito profunda dos riscos que se corriam e da forma quase disciplinar, como se tem que preparar: como se tem de proteger os outros, como se tem de resistir ao máximo para não falar e para não entregar ninguém. O que sabemos sobre a atuação da PIDE era como é que se queria ao máximo que se entregassem mais pessoas para destruir uma organização que estava para lá do aparelho clandestino e a forma como estas pessoas se preparavam, sem romantizações, porque isto obviamente envolveu muito sofrimento dos próprios, muito sofrimento das famílias, que sabiam destes riscos. Estas mulheres que resistiam na clandestinidade, há a questão da separação dos filhos. Recordo-me de me ter encontrado com a Maria Lourenço Capecinha - que morreu em 2022 e creio ter-me encontrado com ela em 2016 -, uma mulher já com oitenta e muitos anos, e quando nós conversamos lembrou-se: "Quando eu me separei do meu filho". O que lhe veio à memória foi a referência à separação dos filhos. A Faustina Barradas, que foi uma mulher que teve sempre na clandestinidade, nunca foi presa, e também a Margarida Tangarrinha, companheira do José Dias Coelho que esteve sempre na clandestinidade, tiveram a sorte de nunca ter sido presas, mas referem sempre que a coisa mais difíceis era a separação dos filhos e, portanto, o momento em que tinham que dizer às crianças que não podiam continuar com eles, porque isso era um risco para as crianças e um risco para eles. Isto marca profundamente estas mulheres. Também marcará os homens, que também o referem muitas vezes, mas as mulheres verbalizam mais. A Faustina Barradas e a Margarida Tangarrinha, inclusive, tiveram as três filhas durante a clandestinidade sob identidades falsas. Isto é todo um outro universo de resistência.

    A Faustina dizia: "Eu não queria levar nenhuma injeção, nem nenhuma anestesia, porque tinha medo de dizer coisas que eu não podia dizer". Como é que alguém está a parir, com dores, e ao mesmo tempo a querer controlar isso? São contextos extremos. Acho que é muito difícil para mim perceber isso e para ti, Mariana, que nascemos em liberdade. São pessoas que se preparavam e que estavam preparadas de forma consciente para resistir até às últimas consequências 

    O caso específico de Catarina Eufémia: uma morte muito dolorosa estes três tiros no meio de uma multidão, estava acompanhada pelo filho. Há este peso de ser uma mãe que estava com a criança. Todo o processo de quando a levam para o hospital, não deixarem que a família a visse, forçarem que o corpo fosse enterrado afastado da terra de Baleizão. Houve aqui desde o primeiro momento um trabalho da polícia política para que esta morte seja ocultada e que não se saiba.

    Até porque a Catarina Eufémia tornou-se este símbolo da resistência dos trabalhadores agrícolas, também pela barbárie que foi o seu assassinato. Houve esta crueldade na forma como a PIDE fazia isso, e mesmo nos momentos mais duros, não permitia o próprio luto das famílias e dos seus amigos. Houve vários funerais que se transformaram em momentos de resistência, tornaram-se em grandes desfiles. O que eles queriam evitar, de certa forma, era que aquele assassinato fizesse dela a mártir que pudesse inspirar mais trabalhadores para continuar a lutar contra a exploração. Isso não foi possível de ser controlado, felizmente foi possível denunciar o crime horrendo. O Zeca Afonso teve um papel fundamental na forma como, através da música, o conseguiu fazer.

    Participar no funeral desta mulher era um ato de resistência, não foi possível controlar isso. A PIDE forçou para que o enterro não acontecesse em Baleizão e acontecesse noutra localidade, em Quintos. Foi muito comum a PIDE, mesmo no momento mais doloroso do luto da família, não respeitar isso. O José Dias Coelho, quando foi assassinado - não comparando coisas que não são exatamente iguais - a Margarida Tangarrinha estava na clandestinidade e não pôde ir ao funeral do seu companheiro. Ela não soube que ele tinha morrido, só num encontro posterior fica a saber e recebe essa informação. O que se sabe é que a PIDE foi ao funeral, perguntou pela viúva a quem queria transmitir as condolências - quando na verdade queria prendê-la - e foi a mãe de José Dias Coelho que começou a gritar com eles e expulsou a PIDE do funeral. Há uma crueza, uma desumanidade brutal, na forma como estas questões foram tratadas.

    No caso de Catarina Eufémia e os trabalhadores agrícolas estamos a falar de uma sociedade muito classista. Estas pessoas, os trabalhadores em geral, não tinham a mesma dignidade que outras pessoas e em particular os trabalhadores agrícolas que na sua maioria pessoas começaram a trabalhar muito cedo, não tinham estudos, eram analfabetos... A violência não tinha o mesmo valor sobre aqueles corpos. Isso é muito evidente nas mulheres do Couço, na forma como foram torturadas. Aliás, há trabalhos que têm vindo a mostrar isto. A violência, a forma como se torturava fisicamente as mulheres, como se torturava os homens, começa com a prisão da Albertina Diogo e da Fernanda Paiva Tomás - e quem diz isto é a Alda Nogueira, que foi outra mulher que esteve presa com elas, logo a seguir ao 25 de Abril -, que no início dos anos 60 a ser sujeitas à tortura do sono e à tortura da estátua, inauguram esse tipo de violência.

    Depois as Mulheres do Couço abrem um campo horrível e desumano de brutais violências físicas, de humilhação do seu feminino, de as acusarem, de as insultarem, de as despirem. Se nós pensarmos a violência que é despir uma mulher destas, que nunca se despia nem à frente do próprio marido, obrigá-las a estar expostas, nuas, agredidas, à frente de outros homens que são agentes. Um dos homens diz uma coisa nojenta a uma destas mulheres, que é: "Eu só não te violo porque tenho nojo de ti". Quer dizer, isto é uma tortura tão bárbara, que marca também, no início dos anos 60, a forma como estes corpos não tinham valor. Isso é muito cruel. Tem várias camadas, as camadas de classe, as camadas de género sobre estas mulheres. Também é muito natural e legítimo que muitas delas depois disto não quisessem falar. Aliás, muitas mulheres e muitos homens, depois de estarem sujeitos à tortura, ficaram em hospitais psiquiátricos, sujeitos a tratamentos muito duros, porque esta violência foi brutal e deixou sequelas para toda a vida. Estamos a falar de pessoas que foram muito humilhadas fisicamente, mas também na sua dignidade humana. São coisas duríssimas, por isso é que acho que é muito importante que se continue a falar destas histórias, até porque estas mulheres não escreveram as suas histórias. Felizmente, muitas mulheres têm-no feito, muitas mulheres que foram intelectuais e que têm escrito as suas histórias. A Margarida Tangarrinha escreveu "As memórias de uma falsificadora". A Isabel do Carmo, a Aurora Rodrigues, a Diana Andringa, a Helena Pato, mulheres que estiveram presas e que têm escrito as suas memórias. Estas mulheres não o fizeram e, portanto, é justíssimo que lhes prestemos uma homenagem tentando compreender melhor as suas vivências, as suas experiências e falando dos seus nomes, nomeando-as por este dever de memória que temos para com elas.

    Como começa o movimento das Mulheres do Couço?

    Cada uma destas mulheres tem uma história. Há obviamente traços comuns. As ligações ao aparelho clandestino do Partido Comunista Português seja por via dos maridos, seja por via dos seus pais, outras diretamente entre elas. Estou-me a lembrar da Maria Custódia Chibante. Até hoje se passarem no Couço, parem, porque tem uma homenagem. Para além de ter uma toponímia muito ligada à história da resistência, isso também é muito significativo, tem um monumento de homenagem ao povo do Couço, um monumento de mármore com blocos que se vão empilhando e é uma escultura muito bonita porque mostra de facto uma ação coletiva que se constrói e que tem várias referências nessas pedras do mármore. Diz: "Aqui se juntaram os trabalhos do Couço em 1940 nas marchas contra a fome. Aqui se juntaram em 1962 pela conquista das oito horas". 

    As mulheres que começam a resistir no Couço, têm papel muito importante nestas lutas: contra a exploração; pelas oito horas de trabalho; por aumentos salariais; pelo trabalho, pão e paz. Estão integradas neste coletivo, que era o Partido Comunista Português na clandestinidade. A Maria Rosa Viseu diz isto numa entrevista que dá ao Jacinto Godinho. O jornalista da RTP faz um trabalho com estas mulheres do Couço, em que ela diz que quando a PIDE começa a perceber que as mulheres têm as mesmas responsabilidades políticas que os homens, começa a persegui-las e a torturá-las da forma. As mulheres não eram apenas apoiantes, estavam na linha da frente desta luta.

    Cada uma delas tem uma história riquíssima, que o que tem de duro e de sofrido, também tem de uma grande coragem, consciência e dignidade. É muito impressionante. Estas mulheres, na sua esmagadora maioria, estiveram presas e não tiveram visitas. A Custódia Chibante nunca teve direito a visitas. A mãe tentou várias vezes, ela escreveu várias vezes ao diretor da PIDE para que a filha pudesse visitá-la e nunca foi autorizado. A Maria Lourença Capecinha - é impressionante, uma mulher que consegue encontrar uma vantagem em ter estado presa - disse num testemunho "Quando fui presa, aí passou a ser bom porque passei a ver o meu filho". Estando na clandestinidade, não encontrava o filho. Então, viu-o, e ela diz logo: "Claro, mas viu-o do lado de lá das grades", porque não permitiam sequer que ela tocasse no filho. A Maria Lourenço da Cabecinha, também na prisão com outras mulheres, estudou. As mulheres entreajudavam-se e apoiavam-se muito nisto. Havia uma cultura de disciplina dentro da prisão que as ajudava muito a manter o discernimento. Elas dizem isto, a questão da disciplina, de haver horas para estudar, horas para ler, horas para limpar a cela. Era uma coisa que as estruturava muito também na sua resistência. As mulheres do Couço em particular, a Maria Rosa Viseu diz que quando sai da prisão continua a ser vigiada pela PIDE, durante alguns tempos não esteve no Couço. São sempre terras em que a presença da PIDE, a presença da GNR e de informadores era permanent. Elas foram encontrando muitas formas de ir resistindo e reexistindo nestas suas múltiplas vivências

    A prisão e a tortura eram diferentes para as mulheres que vinham de classes mais baixas? 

    Elas dizem-nos isto. Os seus testemunhos vão ajudando a compreender isso. Infelizmente, muitas vezes vários trabalhadores rurais foram presos e as famílias demoraram muito tempo até saber onde é que eles estavam.

    Estou-me a lembrar, por exemplo, de experiências muito importantes e firmes de estudantes que foram presos em Lisboa, que as famílias logo se aperceberam e estando em Lisboa tentaram perceber onde é que eles estão. Estão no Aljube? Foram para a António Maria Cardoso? Então os pais e as, sobretudo, as mães - isto é muito interessante, porque as memórias que surgem é as mães foram tentar perceber onde é que eles estavam. Eram pessoas que sabiam estar em Lisboa, sabiam onde é que era o Aljube, sabiam onde é que era Caxias, sabiam onde era António Maria Cardoso. Alguém que vinha de Baleizão, do Couço, de Vale de Varga e de Pias - que é quase na fronteira com Espanha - é muito longe até chegar aqui. Até as famílias terem uma informação da parte da GNR para onde é que tinham sido enviadas estas pessoas, demorava muito tempo. As mulheres começaram a escrever cartas clandestinas a denunciar que estas mulheres do Couço estavam ali presas para que outros presos e familiares de outros presos possam ajudar e fazer chegar esta informação a outros. Era fundamental.

    Eram pessoas que tinham menos condições e que estavam mais expostas à arbitrariedade da PIDE, têm toda uma outra experiência. É preciso ter muita cautela, neste trabalho muito importante de preservação da memória, temos muitas vezes que saber respeitar os silêncios e as necessidades do silêncio. São histórias tão traumáticas e tão duras que muitas vezes não querer falar sobre elas é também um direito que assiste a estas pessoas. Hoje, felizmente, já temos outros meios para falar sobre estas questões sem que ter que sujeitar sempre as pessoas a repetir as suas experiências, familiares a ter que relembrar estas questões, a não ser que o queiram fazer e que sintam que isso pode ajudar no seu processo de lidar e de gerir o sofrimento, porque estamos a falar de momentos muito traumáticos.

    Há muitas pessoas que visitam o Museu do Aljube e que dizem: "Eu não consigo passar do primeiro piso, porque recordo-me de quando vim aqui visitar o meu pai". Isto é muito pesado. Há pessoas que ficam muito mexidas com isso, já me disseram várias vezes, que não conseguem entrar de todo.Também tem a ver com os próprios processos psicoemocionais, como as pessoas lidam com estas questões. Mas não há dúvida nenhuma que aqueles que estavam sujeito

    Se nós percebermos quem foram as principais vítimas das ações diretas da polícia e mesmo das vítimas da PIDE, percebemos que são pessoas que estavam muito mais vulneráveis nas suas condições de acesso à justiça, de acesso a um advogado. Mesmo o que significava "justiça" durante a ditadura, não existia uma justiça livre nem independente.

    O que é o Manifesto de Caxias? 

    Em maio de 1961, treze mulheres que estavam presas em Caxias terão escrito cartas - não se percebe bem se por decisão delas em articulação com o PCP, já que algumas delas eram dirigentes do Partido Comunista - cartas dirigidas a organizações internacionais, que pudessem denunciar o que estava a acontecer e que pudessem divulgar no mundo a luta que estava a ser travada em Portugal. Isto que ficou conhecido como o Manifesto de Caxias ou Cartas da Prisão surge neste sentido em que elas tentam denunciar o que está a acontecer ali, relatam na primeira pessoa as torturas a que foram sujeitas e dizem: "Estão aqui connosco outras mulheres do Couço presas". Acabam também por dizer isso que foram brutalmente torturadas. Estas cartas a servir de denúncia da prisão da forma como elas estavam a ser tratadas, mas também da forma como as outras mulheres do Couço que estavam com elas tinham sido brutalmente torturadas.

    No Manifesto de Caxias, estas cartas são um grito de denúncia. Têm a importância de nos fazer compreender que não teria existido resistência sem solidariedade. A resistência e a solidariedade são uma relação inseparável. Consegue manter estas pessoas na resistência clandestina e ilegal. É a solidariedade entre estas famílias, é a solidariedade entre os presos. São as organizações que se criam a nível internacional de denúncia. São as pessoas que de forma muito espontânea, perante uma carga sobre trabalhadores ou estudantes, abrem as portas das suas casas para que se possam proteger da repressão policial e das cargas policiais do 5 de Outubro e do Primeiro de Maio. Pessoas, que sabendo que estavam presas, ajudam as famílias dos presos financeiramente para a sua subsistência.

    Há uma dimensão muito forte e muito presente aqui da resistência e solidariedade.

    Conta-se menos a história da restistência destas mulheres que trabalhavam no campo?

    Conta-se menos a história das mulheres em geral e conta-se menos a história destas mulheres porque está menos escrita. Se alguém quiser contar esta história, terá que fazer um trabalho mais difícil do que ler as memórias de outras que felizmente as escreveram - e escreveram belissimamente. Livros que do ponto de vista histórico são documentos muito importantes, mas que também têm um interesse muito próprio do ponto de vista literário. Conta-se menos a história destas mulheres porque também são menos nomeadas. Eu como conheço estas mulheres sinto a obrigação de que outras pessoas as conheçam, conheçam os seus nomes e conheçam as suas histórias, porque são histórias tão importantes, tão ricas, tão bravas... Bravas no sentido de que são histórias em que as mulheres não estão apenas num lugar de vítimas, estão num lugar de força, estão num lugar de poder, estão num lugar de transformação. Elas foram vítimas, obviamente, da repressão, mas elas são sobretudo mulheres que resistiram. Isso é uma discussão interessante, a diferença entre vítimas e resistentes, porque há pessoas que não gostam tanto do conceito de vítima e preferem o resistente.

    É preciso contar mais a história de todas as mulheres em geral, que são menos conhecidas, porque a história é contada por quem está num lugar de domínio e de poder. Infelizmente em 2026 ainda não vivemos num mundo em que as mulheres estão e ocupam lugares de poder - e hoje com grandes ameaças. É muito importante que as jornalistas contem histórias de outras mulheres jornalistas, que se fale sobre as mulheres resistentes. Das professoras, médicas, trabalhadoras, artistas, que se falem destas mulheres em todas as suas dimensões porque quando a história não é falada, quando os nomes não são nomeados, o esquecimento é algo muito fácil, porque não se conhece. Há um historiador brasileiro que eu gosto muito, o Luiz Antonio Simas, que tem uma frase que é "o contrário da vida não é a morte, o contrário da vida é o esquecimento". Ele estuda muito as questões da rua, das religiões de matriz afro-brasileira e pensa muito nestas questões do esquecimento. Estas mulheres, infelizmente, a maior parte já morreu, mas nós podemos ainda falar sobre elas e podemos lembrá-las e relembrá-las. A sua morte física não significa o fim da valorização da sua vida e da sua luta. Então, esta ideia de que - "o contrário da vida não é a morte é o esquecimento" - é algo importante para nós compreendermos também de uma forma muito transversal a sociedade, não apenas sobre estas mulheres que resistiram à ditadura, mas sobre outras figuras.

    O legado e o património que existe por parte de pessoas que encararam a sua vida como algo muito generoso, porque também existe aqui uma grande generosidade em todas estas histórias. Alguém que lutou pelos seus e pelos outros. Acho que é a Maria Lourenço Cabecinha, que no testemunho diz qualquer coisa como: "Nós lutávamos pelos nossos e pelos filhos dos outros, para que não passassem fome, para que vivessem num país mais justo, para que vivessem num país livre." Isso é algo que é muito, muito bonito, porque também há beleza nisto.

    Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio, no Rayo ou nas plataformas de podcast.