Chanceler alemão exige voz europeia em negociações entre Kiev e Moscovo

    Friedrich Merz, manifestou reservas quanto à seriedade de Moscovo nas negociações de paz.

    O chanceler alemão, Friedrich Merz, exigiu hoje que os europeus tenham uma voz nas negociações entre a Rússia e a Ucrânia, mas manifestou reservas quanto à seriedade de Moscovo no processo.

    "É importante que a Rússia se envolva finalmente em negociações sérias (…). Por enquanto, não vejo isso a acontecer”, afirmou Merz, que recebeu hoje em Berlim o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, citado pela agência francesa AFP.

    As próximas conversações sobre a guerra na Ucrânia, iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022, estão previstas para 10 e 11 de novembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com negociadores ucranianos, russos e norte-americanos.

    Trata-se da primeira ronda de negociações desde fevereiro, quando o processo foi interrompido devido à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.

    “Os elementos centrais de uma solução de paz, quer seja sobre sanções ou sobre a arquitetura de segurança, só podem ser resolvidos connosco, os europeus, e todos os envolvidos sabem-no com total clareza”, afirmou o líder alemão.

    Merz também anunciou a realização de uma nova cimeira da Coligação de Voluntários em 19 de novembro, em Berlim, com a participação dos líderes francês e britânico, além de Zelensky, seguida do nono Fórum Económico Alemanha-Ucrânia.

    Ao lado de Merz numa conferência de imprensa conjunta, Zelensky concordou com a exigência de uma participação europeia nas negociações.

    “Não pode haver uma paz estável se a Europa não se sentar à mesa de negociação”, defendeu.

    Zelensky referiu a importância de Kiev receber garantias de segurança que permitam que a paz se mantenha efetivamente quando se alcançar um acordo.

    Essas garantias passam por a Ucrânia dispor de forças armadas fortes e de financiamento para renovar a economia e reconstruir o país, bem como por um futuro em que faça parte da União Europeia (UE), precisou.

    “Os Estados Unidos e a Rússia, com todo o respeito pelos Estados Unidos, não podem decidir se a Ucrânia será um Estado-membro da UE. Para isso, é necessário o apoio de outros Estados da Europa”, afirmou.

    Zelensky definiu como prioridades para as conversações em Abu Dhabi um acordo de tréguas no setor energético dos dois países e no transporte de cereais pelo mar Negro.

    Referiu que o transporte de cereais não interessa apenas à Ucrânia, mas também à Rússia e a países em África e na Ásia, além dos parceiros de Kiev.

    “O terceiro aspeto são as pessoas, em que formato podemos reforçar as trocas: uma troca de todos por todos, como nós pedimos, ou pelo menos alguma forma de troca de prisioneiros para que as pessoas regressem mais rapidamente a casa”, assinalou.

    Zelensky disse ainda esperar que as conversações em Abu Dhabi possam resultar num encontro com o homólogo russo, Vladimir Putin.

    “Contamos que o trabalho neste formato e as nossas outras diligências diplomáticas abram caminho para um formato trilateral ao nível dos líderes”, declarou.

    Zelensky recusou negociar ao telefone com o homólogo russo, encontrar-se com Vladimir Putin em Moscovo ou convidá-lo a reunir-se em Kiev, por considerar que seria destrutivo e um insulto para todos aqueles que anseiam pela paz.

    “Não convidaremos Putin para Kiev, não. Em 2022, os russos vieram [à Ucrânia] sem convite, não faz sentido convidar Putin a Kiev, porque não virão”, afirmou, referindo-se à invasão russa de há quase cinco anos.

    “E fazer um convite que não vai ser aceite é destrutivo, do mesmo modo que é destrutivo que me convidem a ir a Moscovo”, referiu, citado pela agência espanhola EFE.

    A invasão russa da Ucrânia desencadeou um conflito que tem sido considerado como o mais mortífero na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), embora se desconheça o número exato de vítimas, tanto militares como civis.

    A Rússia já tinha invadido a Ucrânia em 2014, quando anexou a península da Crimeia.

    A Ucrânia foi uma república da União Soviética desde a fundação do bloco comunista controlado por Moscovo, em 1922, até à sua dissolução em 1991.