Direito à habitação leva manifestantes às ruas de Lisboa: "Somos filhos de Abril"

    Gil, da Nazaré, e Ian, chileno que vive em Portugal há vários anos, juntaram-se à manifestação em Lisboa para defender o direito à habitação. Os dois sublinham que a crise não distingue nacionalidades ou partidos e exigem respostas políticas para garantir que todos possam ter uma casa.

    O direito à habitação e a exigência de melhores condições de vida levaram manifestantes às ruas de Lisboa, numa mobilização que reivindica respostas políticas para uma crise que afeta pessoas de diferentes origens e condições sociais.

    Entre os participantes esteve Gil, que veio da Nazaré, que contestou as declarações do primeiro-ministro sobre as manifestações de rua e rejeitou a associação entre o protesto e comportamentos desordeiros.

    "Aqui não está ninguém desordeiro. Estamos a afirmar os nossos direitos de Abril, que estão plasmados na Constituição", afirmou, defendendo que o Governo deve reconhecer a legitimidade da contestação popular.

    Para Gil, a manifestação é uma forma de exercer direitos fundamentais e de exigir respostas para problemas que afetam a população, nomeadamente o acesso à habitação, à educação e à saúde.

    O manifestante questionou também as prioridades da política de financiamento, defendendo que os recursos devem ser orientados para áreas essenciais ao bem-estar das populações, em vez de serem canalizados para a guerra.

    "Em vez desses fundos serem orientados para o desenvolvimento da educação, da habitação e da saúde, vão para a guerra", criticou.

    Gil considera ainda que os portugueses têm o mesmo direito de contestar as políticas governamentais que os cidadãos de outros países europeus, apontando os exemplos de Espanha e França.

    "Nós estamos na Europa" e "temos o mesmo direito que o povo espanhol, que o povo francês", sublinhou, antes de concluir com uma referência aos valores da Revolução de 25 de Abril: "Além disso, somos filhos de Abril".

    "Todos devemos ter um espaço que podemos chamar casa"

    Também Ian, natural da Patagónia, no Chile e a viver em Portugal há vários anos, participou na manifestação por considerar que é necessário mudar a situação atual no acesso à habitação.

    "Acho que o direito à habitação, a habitação é um direito", afirmou, defendendo que todas as pessoas devem ter um espaço a que possam chamar casa ou lar.

    Ian reconhece que vive uma situação privilegiada: tem casa, não paga uma renda elevada e vive com tranquilidade. Mas essa realidade, sublinha, não é partilhada por muitos dos seus amigos.

    "Eu sou privilegiado, tenho a minha casa, não pago uma renda alta, vivo super tranquilo, mas tenho muitos amigos que não vivem dessa maneira", contou.

    Para o manifestante, a crise da habitação é um problema transversal, que ultrapassa as diferenças de nacionalidade, filiação política ou situação profissional.

    "Não tem nacionalidade, não tem partido político, não tem trabalho, não tem nada. Toda a gente está a passar o mesmo. São muito poucos os que estão bem", afirmou.

    Um cartaz dirigido aos polícias

    A mensagem que Ian levou para a manifestação também traduz a ideia de que a luta pelo direito à habitação não deve ser entendida como um confronto entre grupos da sociedade.

    No cartaz, deixou um apelo dirigido às forças de segurança: "Senhor polícia, isto é por mim, por si e por todos os seus companheiros".

    Questionado sobre o significado da mensagem, explicou que a reivindicação é coletiva e não pretende colocar manifestantes e polícias em lados opostos.

    "É todos, uma luta de todos para todos", resumiu.

    Ian descreveu ainda o protesto como pacífico, considerando que não é necessária violência para defender uma causa ou reivindicar mudanças.

    "Está a ser super tranquilo. (...) Não é preciso violência", afirmou.