Ed Sheeran quebra silêncio no palco: "o que está a acontecer em Gaza é catastrófico, injustificável e desproporcional"

    "Estou profundamente preocupado que as salas de espetáculos possam ter de aprovar o conteúdo das atuações", disse o músico em Filadélfia.

    Ed Sheeran voltou a subir ao palco após recentemente o rapper Macklemore ter sido afastado da tour "Loop" do britânico por ter feito um discurso em defesa da liberdade para a Palestina.

    Na sequência do afastamento do rapper, pressionada por um dos donos de um dos estádios por onde irá passar a tour e, segundo Sheeran, decidida pela promotora, os restantes músicos que iam fazer a abertura dos espetáculos bem como a banda que estava a atuar com o inglês anunciaram a saída da tour em solidariedade com a Palestina.

    Ontem, em Filadélfia, Ed Sheeran abriu o concerto com um discurso para esclarecer a o seu posicionamento após a polémica instalada.

    "Normalmente não abro os concertos desta forma mas esta noite, antes de tocar algumas canções, espero que não se importem que diga algumas palavras em relação o que se passou durante esta última semana", disse o músico que estava visivelmente nervoso e comovido.

    "Estou habituado a ser criticado pela música que faço e não me importo com isso porque tenho a sorte de ter pessoas como vocês que gostam das minhas coisas. Honestamente não fico surpreendido por haver pessoas que não gostem. É normal", acrescentou. "Mas esta semana, a crítica foi sobre algo muito mais importante. Tive de tomar decisões difíceis, cometi erros e peço desculpa por isso", assumiu perante a multidão que foi assistir ao concerto.

    "Não quero desapontar os fãs e nunca quis ser um músico ativista mas isto coloca-me no meio de um debate sobre a liberdade de expressão e no meio da questão política mais complexa do planeta. Os meus concertos sempre foram um espaço seguro para toda a gente. Isso é muito importante para mim. Honrar o compromisso que tenho com os meus fãs é essencial para mim. É por isso que estou aqui, a continuar com esta digressão", esclareceu Sheeran.

    "Estou profundamente preocupado com o facto de as salas de espetáculos possam ter de aprovar o conteúdo das atuações. E isto acontece em muitos sítios onde atuei no mundo inteiro. É algo que nunca deveria acontecer num mundo livre", sublinhou, referindo-se depois ao que se passa entre Israel e a Palestina.

    "Agora quero falar sobre a minha posição em relação a Israel e à Palestina. Dar este concerto está relacionado com isso. Ao longo da minha carreira tentei não comentar política porque queria que a minha música e os meus concertos fossem sobre união e não sobre divisão, que fossem sobre a humanidade e não sobre política. Mas este é um assunto humanitário. E já não consigo esconder mais o que sinto. O que aconteceu no festival Nova em Israel a 7 de outubro [2023] foi horrível e agravou séculos da dor judaica. Mas o que está a acontecer em Gaza é catastrófico, injustificável e desproporcional. Tenho o coração partido com a escala de devastação e com a perda da vida de civis, de crianças. A injustiça sistémica que acontece na Cisjordânia não nos pode passar ao lado. Já estou a falar com pessoas da área para poder fazer contribuições que ajudem as vítimas nestes tempos horríveis. Estou a ouvir. Estou a aprender porque não sei o suficiente", admitiu.  

    Emocionado, Ed Sheeran continuou: "honestamente estou muito grato por estarem aqui comigo esta noite. Este concerto é um lugar em que todos são bem-vindos. E todos podem estar ao lado de pessoas que tenham visões opostas e com as quais não concordem. Mas todos concordam em cantar estas canções. E estas canções são sobre amor, esperança e união", rematou. 

    CONTEXTO

    Macklemore foi afastado da digressão após ter apelado à libertação da Palestina - algo que tem feito com frequência nos concertos em nome próprio, além de ter já editado dois temas de protesto ('Hind's Hall' e 'Hind's Hall 2') contra a atuação de Israel e dos Estados Unidos na Palestina, sobretudo na Faixa de Gaza. 

    A polémica em relação à digressão de Sheeran estalou, porém, no início do mês quando a cantora Pink criticou publicamente o discurso que Macklemore fez no concerto que deu no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, nos Estados Unidos - um dos espetáculos inseridos na "Loop Tour". Pink deu a entender na publicação que os fãs judeus presentes no estádio mereciam um pedido de desculpa e que deveriam ser reembolsados após as palavras do rapper.

    Macklemore acabou por ser afastado na sequência da decisão de vários estádios que recusaram receber o rapper que falou em defesa da Palestina

    De acordo com o que noticiou a "Rolling Stone" na altura, os estádios notificaram a Messina Touring Group (promotora da digressão) de que não iriam permitir a realização de concertos que incluíssem Macklemore. Na mesma declaração, citada pela revista, caso a promotora não afastasse o rapper "a digressão seria cancelada, o que "impactaria centenas de milhares de fãs"


    O QUE DISSE MACKLEMORE EM NOVA JÉRSIA


    Macklemore tem sido um dos artistas norte-americanos mais vocais em relação à atuação de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Num dos concertos que deu no estádio MetLife, o músico reforçou a mensagem de libertação da Palestina, mas também a de igualdade e justiça para todos os povos.

    "Quero dizer estas palavras bem alto para que as pessoas em Gaza saibam que não estão esquecidas", disse no discurso. "A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid e ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês", esclareceu Macklemore, fazendo ainda alusão à libertação do Líbano, de Cuba, do Congo, do Sudão e das pessoas nos Estados Unidos que sofrem com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).

    Após o afastamento do rapper Macklemore da digressão de Ed Sheeran, após ter proferido palavras de apoio à libertação da Palestina nas atuações de abertura da tour, os restantes artistas que iam fazer as primeiras partes dos concertos da mesma digressão anunciaram o cancelamento das atuações. 

    Também a banda que estava a acompanhar o músico inglês anunciou que vai abandonar a digressão "Loop" após a decisão da promotora em afastar Macklemore. 

    Finneas, Lukas Graham, Beoga e Aaron Rowe usaram as contas oficiais nas redes sociais para anunciar a decisão

    MAS ANTES O CONTEXTO

    Já é sabido que Macklemore foi afastado da digressão após ter apelado à libertação da Palestina - algo que tem feito com frequência nos concertos em nome próprio, além de ter já editado dois temas de protesto ('Hind's Hall' e 'Hind's Hall 2') contra a atuação de Israel e dos Estados Unidos na Palestina, sobretudo na Faixa de Gaza. 

    A polémica em relação à digressão de Sheeran estalou, porém, no início do mês quando a cantora Pink criticou publicamente o discurso que Macklemore fez no concerto que deu no MetLife Stadium, em Nova Jérsia, nos Estados Unidos - um dos espetáculos inseridos na "Loop Tour". Pink deu a entender na publicação que os fãs judeus presentes no estádio mereciam um pedido de desculpa e que deveriam ser reembolsados após as palavras do rapper.

    Macklemore acabou por ser afastado na sequência da decisão de vários estádios que recusaram receber o rapper que falou em defesa da Palestina

    De acordo com o que noticiou a "Rolling Stone" na altura, os estádios notificaram a Messina Touring Group (promotora da digressão) de que não iriam permitir a realização de concertos que incluíssem Macklemore. Na mesma declaração, citada pela revista, caso a promotora não afastasse o rapper "a digressão seria cancelada, o que "impactaria centenas de milhares de fãs"


    O QUE DISSE MACKLEMORE EM NOVA JÉRSIA


    Macklemore tem sido um dos artistas norte-americanos mais vocais em relação à atuação de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Num dos concertos que deu no estádio MetLife, o músico reforçou a mensagem de libertação da Palestina, mas também a de igualdade e justiça para todos os povos.

    "Quero dizer estas palavras bem alto para que as pessoas em Gaza saibam que não estão esquecidas", disse no discurso. "A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid e ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês", esclareceu Macklemore, fazendo ainda alusão à libertação do Líbano, de Cuba, do Congo, do Sudão e das pessoas nos Estados Unidos que sofrem com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).

    COMO REAGIU MACKLEMORE AO AFASTAMENTO DA DIGRESSÃO


    A 14 de setembro, após ter sido informado do seu afastamento, o rapper reagiu com um comunicado publicado nas redes sociais. O rapper afirmou que foi o pró-israelita Robert Kraft (CEO do Kraft Group e dono da equipa de futebol americano New England Patriots) que terá organizado o boicote entre os vários estádios devido às declarações pró-Palestina que fez. 

    Já Robert Kraft, citado pela norte-americana "NBC News", justificou que a tomada de decisão foi baseada nas declarações do rapper mas também “numa história mais ampla de retórica e de imagem” que acredita “terem sido profundamente ofensivas e dolorosas para a comunidade judaica”. 

    Em comunicado Macklemore esclareceu: "vou escrever com o coração e partilhar a verdade. Ed Sheeran e a equipa que o acompanha tomaram a decisão de me remover da digressão 'The Loop’. Mas antes de aprofundar o assunto, quero dizer algo que deveria ser óbvio. Acho que é o que mais importa. Eu não sou uma vítima. O Ed Sheeran não é uma vítima. A Pink não é uma vítima. Temos carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e público em qualquer parte do mundo. Quaisquer que sejam as consequências que possamos ter de enfrentar pelo que dizemos podemos sempre voltar para nossas famílias", acrescentou. 

    "As vítimas são o povo palestino. São os homens, as mulheres e as crianças que foram mortos, que estão a passar fome, que ficaram sem casa e que vivem situações de violência inimaginável. Só em Gaza mais de 20 mil crianças foram mortas. Há pessoas que estão a ser mortas hoje e que vão ser mortas amanhã. Quero que isto não seja esquecido", reforçou Macklemore, explicando depois o sucedido. 

    "O Ed disse-me que o Kraft lhe tinha dito que eu não podia atuar no estádio [o Gillette Stadium] do qual é dono”, esclareceu o músico, afirmando que a decisão teria sido seguida por outros proprietários de estádios que fazem parte do circuito da digressão. 

    O rapper reconheceu que Sheeran, a quem chamou de amigo, ficou numa posição difícil, sobretudo por questões financeiras e relacionadas com a carreira, e sublinhou que as posições de ambos não convergem. 

    “O típico posicionamento apolítico de Sheeran foi desafiado como nunca tinha sido antes. O Ed disse-me que as palavras ‘Liberdade para a Palestina’ e a imagem da bandeira da Palestina eram dolorosas para muitas pessoas com quem conversava. E eu respondi que, se essas palavras são mais ofensivas do que o facto de dezenas de milhares de crianças palestinianas estarem a serem mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre a posição dessas pessoas e a minha posição. Mas ele não conseguiu superar a sua postura pública e disse-me, 'eu não tomo partidos'", continuou o rapper que assegurou, porém, querer manter a amizade com Sheeran.

    O COMUNICADO DE ED SHEERAN

    Ed Sheeran também emitiu um comunicado com uma publicação na conta oficial de Instagram. O músico começou por dizer que está “horrorizado” com o que se passa entre Israel e a Palestina. “O sofrimento e a dor causado a ambos os lados é uma tragédia humana”, continuou. "Há demasiadas guerras no mundo a provocar uma dor imensurável, nenhuma deveria ser tolerada", acrescentou o artista inglês.

    "O Macklemore pediu-me no ano passado para se juntar à minha digressão e eu concordei porque é um artista que respeito muito. Tal como faço com todos os artistas que abrem os meus concertos, concordei com o alinhamento que escolheu", referiu ainda Sheeran. 

    O músico explicou depois que vários recintos por onde iria passar a digressão comunicaram que iriam cancelar os concertos, caso o rapper continuasse a fazer a abertura. "Fui informado de que esta tomada de posição foi baseada na forma como a mensagem foi comunicada e não tanto no que foi dito", continuou o britânico. "Falei com os estádios ao longo da semana para tentar criar uma ponte. Uma dessas pessoas foi o Robert Kraft. Falei diretamente com os promotores e com ativistas de ambos os lados para tentar chegar a uma solução que servisse todos, mas a decisão da promotora e dos recintos dos concertos foi final. A decisão do Macklemore sair da digressão foi da promotora, não foi uma decisão minha. O contrato que tinha era com a promotora e não comigo", esclareceu. 

    "Nunca desiludiria os fãs que fizeram planos nem podia abandonar a equipa da tour, as outras atuações de suporte e os músicos que dependem de mim para ter trabalho e para viverem", sublinhou. "Eu não sou cúmplice. Tenho minhas opiniões pessoais sobre este conflito devastador. Só porque escolho não falar publicamente, não significa que eu não as tenha e não significa que eu não me importe", disse ainda o britânico na publicação. 

    Macklemore anunciou entretanto que ia doar 1 milhão de dólares a organizações que estão a ajudar as vítimas na Palestina e desafiou Kraft a fazer o mesmo. Em comunicado, Kraft respondeu que Sheeran lhe tinha pedido para doar 2 milhões para igualar a contribuição que estava disposto a fazer.