Empresas de Bragança não conseguem investir em pessoas qualificadas e tecnologia

    Presidente do NERBA admitiu “conservadorismo” nas empresas da região e que, em termos digitais, estão “um ponto mais atrás” em relação ao país.

    Cerca de 99% das empresas do distrito de Bragança são micro e pequenas empresas, com dificuldades em contratar pessoas qualificadas e em investir em tecnologia, revelou, hoje, a presidente do NERBA, que entende que é preciso ambição e transformação.

    Dados do NERBA - Associação Empresarial do Distrito de Bragança, revelam que nesta região 95 a 96% são micro empresas (com menos de 10 trabalhadores), 3,5 a 4,2% são pequenas empresas (entre 10 a 49 trabalhadores) e apenas 0,1% são grandes empresas (com mais de 250 trabalhadores).

    A “natureza das próprias empresas é o principal obstáculo”, segundo Ana Carvalho, para a contratação de gente qualificada, essencial para o crescimento da firma e para apostar no digital.

    “É evidente que negócios de menor dimensão não permitem os desenvolvimentos de carreira e pessoais, que talento altamente qualificado procura. Portanto, temos dificuldade em fazer transformações e crescimento, porque temos fuga de talento”, referiu a presidente do NERBA.

    Por isso, defende, a “estratégia dos negócios locais tem de mudar”, os “negócios locais têm de procurar mercados fora, têm que ganhar a ambição e têm que procurar transformar os seus produtos ou as suas formas de venda de forma a captar mercados nacionais e internacionais”.

    Numa região onde muitas empresas são do setor agrícola, Ana Carvalho entende que o crescimento depende não só de colaboradores qualificados, mas também de investimento na transformação.

    “É importante que o território se capacite de indústria transformadora. (…) Só com um grande investimento no agroalimentar e na transformação daquilo que são os produtos endógenos é que nós conseguimos alavancar a economia regional, porque é fundamental nós centrarmo-nos nas atividades que acrescentam valor ao produto e que permitem vender esse produto com maior lucro”, explicou.

    Como exemplo, falou da produção de castanha, que é vendida a granel, devido à baixa transformação na região. No seu ponto de vista, se houver mais transformação do fruto, poderia tornar-se num “produto de nicho”, “setor premium”, o que iria “aumentar margens”, porque ao ser produzido em baixa escala, “os custos logísticos diminuem”, criando-se um negócio “ideal” para a região.

    No entanto, a falta de indústria transformadora, diz, deve-se à “incapacidade de investir e de assumir riscos e ambição”.

    “O desafio é fazer este crescimento através destes jovens altamente qualificados, mas as empresas locais, os empresários locais, o tecido empresarial local, [tem de] permitir-se a esta junção entre o jovem talento e aquilo que são negócios familiares, já com características e personalidades próprias, e permitir-se a essa transformação”, frisou.

    A presidente do NERBA admitiu, à Lusa, que existe “conservadorismo” nas empresas da região e que, em termos digitais, estão “um ponto mais atrás” em relação ao país, com uma literacia digital “mais atrasada”, mas começam a ser dados “passos lentamente” para mudar este cenário com a entrada da nova geração.

    Ainda de acordo com dados da associação empresarial, apenas entre “55 a 59% das empresas regionais mantêm 'website' ou página oficial”, apenas “28 a 33%” adotam tecnologias de computação e nuvem, sendo que a média nacional é de 38,7%, e menos de 6% usa inteligência artificial, abaixo da média nacional que é de 11,5%.

    “A nova geração está a mudar e eu diria que, a junção da nova geração com a geração que está a deixar o seu legado, esta junção, também está a trazer frutos, mas é algo que acontece lentamente”, sublinhou.

    O NERBA tem vindo a desenvolver projetos ligados ao digital, o Emprego+Digital, que decorreu entre 2023 a 2025, e contou com a participação de 1922 pessoas, e  o Líder+Digital, para empresários ou gestores de pequenas e médias empresas, e contou com 54 participantes.