Especialista afirma que a infância sedentária ameaça saúde física e mental

    Desenvolvimento das crianças pode estar em risco, de acordo com o professor universitário Carlos Neto.

    O professor universitário Carlos Neto defendeu hoje que a redução do tempo de brincadeira e a excessiva exposição aos ecrãs com pouco contacto com a natureza estão a comprometer o desenvolvimento físico e emocional das crianças.

    «É inaceitável que tenhamos crianças a brincar menos de uma hora por dia nas primeiras idades. Isso paga-se caro no futuro», afirmou o professor da Faculdade de Motricidade Humana, defendendo que o impacto das novas tecnologias no quotidiano infantil representa "uma tragédia coletiva", porque vieram substituir o movimento e a atividade física por longos períodos em frente a ecrãs.

    Segundo o especialista em desenvolvimento motor e atividade física, os sinais dessa transformação são já visíveis: As crianças são hoje «analfabetas do ponto de vista motor, porque não sabem saltar, não sabem correr, não sabem trepar uma árvore. Têm dificuldades, muitas vezes, de equilíbrio emocional. Não têm coordenação motora suficientemente ajustada».

    Cada vez mais sedentárias, as crianças e jovens acabam por ter problemas de excesso de peso ou obesidade, mas também doenças como diabetes, ansiedade, depressão e outras perturbações da saúde mental, alertou na entrevista ao podcast LusaExtra (www.lusa.pt/lusaextra).

    Para o especialista, existe uma ligação direta entre a redução das experiências de brincadeira nos primeiros anos de vida e os baixos níveis de atividade física registados na adolescência. Recordando que os hábitos são construídos muito cedo, sustenta que a infância é determinante para o comportamento futuro.

    «Temos dados científicos claros que demonstram que corpos ativos na infância e na puberdade permitem que esses hábitos permaneçam durante o resto da vida até à terceira idade e isso tenha benefícios muito consideráveis do ponto de vista da saúde física, da saúde emocional, da saúde mental», sublinhou.

    A presença constante dos ecrãs tem sido uma das principais causas para os problemas identificados nas crianças e jovens.

    Sobre a decisão do ministério da Educação de alargar até ao 9.º ano a proibição do uso de 'smarphones' nos recreios, Carlos Nelo alerta que não basta proibir e que é preciso dar ferramentas de literacia digital aos mais novos.

    «Eu chamaria aqui a atenção para a existência do equilíbrio que deve existir, quer na escola, quer na família, quer na comunidade, na utilização destas novas tecnologias. Elas vão revolucionar o mundo», disse.

    Segundo o professor, o desafio passa por encontrar um equilíbrio entre o mundo tecnológico e o mundo natural. Carlos Neto defende uma abordagem equilibrada, baseada em regras que devem ser negociadas entre pais, professores e crianças.

    Mais do que proibir, considera que é fundamental pensar em algumas perguntas que permitam perceber o que é que se está a perder por causa do tempo passado nos dispositivos eletrónicos, nomeadamente experiências de socialização, contacto com a natureza e atividade física.

    O professor defende uma "reconexão urgente" entre crianças e o mundo natural, argumentando que os ecrãs não podem substituir as experiências proporcionadas pelo exterior. Nesse sentido, apelou a mudanças na organização das escolas e nos espaços educativos.

    Na perspetiva do especialista, os alunos deveriam sair mais vezes da sala de aula e aprender em contacto com a realidade, em vez de aprender apenas pelo que está escrito nos livros.