Ezra Collective: dançódromo de jazz em Cascais
Antes, Jordan Rakei deu-lhe com a soul no Hipódromo Manuel Possolo.
Foi numa noite quente de verão em Cascais, como a desta terça-feira, que os Ezra Collective transformaram o Hipódromo Manuel Possolo numa pista de dança gigante. É um jazz com sentido global que põe a dançar.
O palco já tinha um leão com a sua enorme juba por trás da banda. O rei da savana é um símbolo de coragem para muitos dos países africanos, e uma cultura bem presente na cidade de Londres, de onde vêm os Ezra Collective. Na capital britânica cabe o mundo todo e no jazz dos Ezra Collective também. É um jazz multipátrida que dispensa passaporte ou visto. Não é por acaso que o baterista e líder de banda Femi Koleoso se levantou do banco da sua bateria e desafiou os espectadores a fazerem amizades com os desconhecidos ao lado - “por cada amigo que façam, façam barulho” - logo antes de tocarem a segunda música do alinhamento.
É habitual ser Femi Koleoso o homem dos discursos à multidão. Mais tarde, pediu a colaboração do público para fazerem daquele recinto um “temple of joy”, quando vincou que “a importância da dança entre todos é ainda maior hoje”. O baterista inglês de ascendência nigeriana falou das suas fortes impressões do nosso país - “os concertos começam mais tarde em Portugal, nunca tínhamos começado um concerto à 1 hora da manhã”.
Prende a atenção o grande fôlego do saxofonista James Mollison, com uma caixa de ar mágica. Faz uma dupla de sopros com o trompetista Ife Ogunjobi . O trompete de Ife Ogunjobi vive nas Caraíbas e nos boleros. O jazz dançante dos Ezra Collective palmilha o mundo todo ao mesmo tempo, como uma criança a rodar o globo em um segundo. Os Ezra Collective navegam pelo Atlântico, entre o afrobeat da Nigéria, o dub da jamaica ou os boleros de Cuba, de forma diluída, sem fronteiras, nem muros.
O baterista Femi Koleoso exibe uma uma força monumental nos pedais e nas baquetas, a fazer tremer o kit, o palco e o resto de Cascais. O teclista Joe Armon-Jones dá o toque de racionalidade e de suavidade no meio daquela festança.
Em Togetherness, após o discurso agregador do baterista, três dos músicos metem -se pelo meio da multidão, enquanto o público dança, salta e abraça-se. Depois, abrem-se as vedações do Golden Circle, e o pessoal invade a zona de frente para o palco, para a desbunda ser ainda maior.
Aquela coisa dos músicos mandarem o pessoal agachar-se e levantar-se para a loucura total não é dos déjà vu mais aborrecidos, muito menos num concerto dos Ezra Collective. ‘God Gave Me Feet for Dancing’ em versão instrumental, com alguns festivaleiros a cantarem o verso timidamente, fecha a festança de hora e meia dos Ezra Collective.
Antes, esteve no palco do Hipódromo Manuel Possolo o cantor oceânico Jordan Rakei. O céu ainda estava pouco escuro e os bandos de pássaros ensaiavam os últimos voos do dia.
Acompanhado por mais cinco músicos - um baterista, um percussionista, uma baixista, uma teclista e um guitarrista -, Jordan Rakei provou ter soul na voz e jazz nos dedos. Mostrou uma enorme projeção vocal, com um espírito calmo de quem sabe para onde conduzir a música sem pressa. Canta como quem vem de uma sessão de yoga, em volume baixo, de olhos fechados. Quanto às dedadas de jazz, deixou essas impressões digitais nas teclas do seu piano.
A sua música é um íman dos géneros afro-americanos todos dos Estados Unidos - soul, jazz, funk - com proveitosas jams, com margem dada para os vários solos dos seus cinco instrumentistas. Nessa margem para exposição de talento, a teclista, que fazia os coros, fez um brilharete vocal, com a benção de Jordan Rakei.
