"Finalmente despertaram para defender o seu direito a uma casa"

    Manifestantes de todas as idades exigem respostas à crise da habitação que vive em Portugal e apelam à mobilização coletiva pela mudança.

    Milhares de pessoas desceram a Avenida da Liberdade em Lisboa este domingo para lutar pela habitação. Do Marquês ao Rossio, manifestantes de todas as idades levantaram a voz. As preocupações são tantas que as tendas voltaram a ser armadas. 

    João Pedro: "Há uma necessidade de lutar por direitos"

    Aos oitenta anos, desce a avenida acompanhado pela mulher e pela filha por "uma grande solidariedade" com os que "finalmente despertaram para defender o seu direito a uma casa". Cita Brecht: "do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

    Apesar de ter "este problema aparentemente resolvido há algum tempo", pensa nos netos e na necessidade de lutar pelos direitos. João Pedro desce a Avenida da Liberdade "há mais de 50 anos pelas causas justas", desde o 25 de abril.

    Laura Rodrigues: "Obrigaram-me a vir para a rua gritar"

    Ao contrário de quem vê os protestos na comunicação social e "se indigna com cartazes em estátuas e monumentos pintados", Laura Rodrigues sente-se indignada com "ver as pessoas deitadas no metro e nas estações de comboio" quando vai trabalhar e com os despejos, "como foi o caso do bairro do Talude". Diz que é essa indignação perante a situação, ao invés de se incomodar com "alguns cartazes e algumas tintas", que a leva para a rua gritar.

    Sabe que "não é a primeira vez nem será a última" que se manifesta. Define como "insustentável" o custo de vida e garante que "enquanto tiver forças" vai lutar, já que a seu ver "chegámos a um estado em que precisamos mesmo de vir todos para a rua gritar".

    Joana: "A violência de não ter futuro é muito pior do que a violência física"

    Numa altura em que a atenção está centrada na atuação policial, Joana acredita que é preciso separar os tipos de violência. Além da física "há uma violência que está a ser perpetuada pelo governo contra o povo". 

    O facto de os manifestantes continuarem a montar tendas, apesar do risco de novas represálias, mostra que "a violência de não ter futuro é muito pior do que a violência física de um cassetete".

    Veio à manifestação "lutar pelo futuro de todos". Não só dos jovens, mas também dos mais velhos, "a geração dos nossos pais".

    Helena Pires: "Um movimento que deve continuar"

    À chegada ajudou a montar uma tenda no Rossio. Não conhece o proprietário da tenda, mas passa diariamente pelo protesto, embora não consiga acampar. Considera que essa é uma demonstração de solidariedade para com "um movimento que deve continuar".

    Helena Pires defende que esta "luta justa" está em conformidade com o artigo 45.º da Constituição. Alega que a ilegalidade está na forma como as forças policiais "atacam com força bruta manifestantes que estão de forma pacífica a exigir algo que é perfeitamente razoável e que é um direito constitucional". 

    Catarina Cruz: "Pensar no futuro ao pé das nossas famílias, amigos e no país em que nós nascemos e que gostamos de estar"

    Sai à rua em "solidariedade com todos, para que os jovens possam ter uma vida mais digna, ter casas e pensar num futuro em Portugal e não fora". Não é a primeira vez que se junta a esta manifestação mas vem "com um cadinho mais de força" e acompanhada por amigos.

    Catarina Cruz acredita que para isso é preciso que as pessoas não estejam sempre a fazer uma gestão permanente das contas, sem a preocupação constante com "quanto dinheiro tenho, onde é que posso ter a minha casa, para onde posso ir". Almeja a possibilidade de "pensar no futuro ao pé das nossas famílias, amigos e no país em que nós nascemos e em que gostamos de estar".

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    Manifestação em Lisboa Mariana Serrano

    Cátia Barreto: "Falta de empatia é também uma forma de miséria"

    Traz um cartaz com uma casa construída em cartão onde incluiu figuras Playmobil. Inspirou-se na ideia de "um primeiro desenho de criança" e incluiu a frase da mãe, "um pedaço dela" que não conseguiu estar presente: "falta de empatia é também uma forma de miséria". 

    Cátia Barreto admite que chega ao fim do mês "a contar cêntimos para conseguir sobreviver".

    Gonçalo Moreira: "Uma luta transversal"

    O direito à habitação trouxe Gonçalo Moreira à sua primeira manifestação. Não está em causa uma falta de empatia com outras causas, mas na convicção de que se trata de "uma luta transversal", independente de "cores políticas ou de ideais e valores". 

    Acredita que "chegámos ao nosso limite em Portugal" no que respeita a um direito consagrado na Constituição e que está presente na Declaração dos Direitos Humanos.

    Diana Estrela: "Estar em conjunto e lutar pelos direitos de todos"

    Desce a Avenida pelo medo de concluir uma licenciatura e um mestrado e "não ter a expectativa de conseguir viver sozinha, ter uma casa e pagar as contas". Costuma estar presente no desfile do 25 de Abril, desta vez junta-se a um grupo de amigos da faculdade para "pertencer à manifestação e estar em conjunto e lutar pelos direitos de todos".

    Paula: "É preciso que todos se unam e saiam às ruas a pedir por mudança"

    É o "coletivo" que a traz pela primeira vez a uma manifestação em Portugal. Deixou o Brasil há quinze anos e sente que o custo de vida aumentou "de forma absurda". Acompanhada pela mãe e pelos filhos, defende que os jovens precisam de estar presentes nestas ações já que "a cidadania só existe se você a viver".

    Para Paula "é preciso que todos se unam e saiam às ruas a pedir por mudança".