John Legend: mais de 30º debaixo de soul

    Noite quente no MEO Arena, aquecida ainda mais pelo cantor. O amor foi a palavra-chave do espetáculo.

    O lisboeta MEO Arena esteve esta noite totalmente cheio na sua lotação máxima, do balcão mais baixo e removível ao mais alto e desaconselhado a quem sofra de vertigens, para um grande espetáculo de John Legend, talvez o melhor que o homem do soul já deu por estas bandas.
     
    As temperaturas bem altas dentro do pavilhão subiram mais uns graus quando John Legend irrompe às pontuais 22 horas num piano em plataforma elevatória, a cantar a balada I Know Better.
     
    Abertos os altos painéis, começou a festa à segunda canção, Penthouse Floor, com John Legend a saltar do banco do piano para a frente do palco, cortejado pelo trio do coro feminino. A banda também aparece e todo o público levanta-se. Íamos ter noite!
     
    Em Tonight (Best You Ever Had), o coro está em sintonia até nos gestos coreografados ao milésimo. No popular Love Me Now, os quatro painéis reaparecem para a sua função de ecrã - com numerosas imagens de casais de todo o tipo.
     
    Made to Love tem grandiloquência mais etérea que permite a John Legend conquistar mais rapidamente o mundo com a sua mensagem amorosa. Em What You Do, John Legend dança sozinho frente aos painéis naquilo que é naqueles momentos uma discoteca. Depois de recarregar as forças sentado durante breves minutos, o público levanta-se de novo para celebrar de braços no ar a canção Used to Love U e, claro, o esforçado John Legend, a quem já se vêem cair gotas de suor da sua face quando mostra os seus atributos de pianista em Save the Night
     
    Like I'm Gonna Loose You merece juras de amor renovadas, primeiro ditas e depois cantadas. E depois de mais uma prece em Save Room a essa entidade amorosa que é quase a fonte única das canções de Legend, o assunto torna-se mais físico em Slow Dance quando o cantor casamenteiro consegue apertar ainda mais os milhares de casais enamorados na sala. Mas Legend ele próprio não se fica e experimenta o seu Slow Dance com uma fã da fila da frente, uma tal de Ana.
     
    Depois, John Legend faz uma vénia à história da música, metendo-se nos reportórios de gigantes por duas vezes. Primeiro, para uma versão de Superfly do grande soulman Curtis Mayfield, com as luzes da ribalta a fazerem brilhar cada um dos instrumentistas de Legend com um solo à vez. E mais tarde, God Only Knows dos Beach Boys merece um impressionante solo vocal de John Legend, a provar que não é meramente um condutor cool de uma grande espectáculo, é também um grande cantor.
     
    Pelo meio, em Wake Up Everybody, John Legend vai outra vez ao baú da história, desta vez para a parte mais política, com imagens das grandes marchas dos anos 60 pela igualdade racial nos Estados Unidos, com epicentro em Washington. Depois volta-se ao jogo do amor às escuras, e mais pares amorosos se beijam, enquanto o bem-feitor John Legend se esmera ao piano a cantar a balada Ordinary People que merece no final uma grande ovação de pé.
     
    Além de especialista no amor, John Legend também conhece os truques do showbiz, e numa habilidade muito sua, interrompe o arranque de Green Light, para avivar o público com a sua reanimada banda... Objetivo alcançado, a festa estava instalada.
     
    You And I (Nobody in the World) é o ataque de saudades de John Legend à filha e à mulher Chrissy Teigen, distantes lá no seu lar californiano, mas engrandecidas ali pelas telas gigantes do palco - o momento de revista cor-de-rosa da noite. Para finalizar, interpreta-se So High, com o piano de John Legend a apanhar novamente a placa elevatória, por cima de uma nuvem de fumo. John Legend sai como entrou, lá em cima, a teclar o piano.
     
    Para o encore, por alguma razão foi escolhida All of Me, aferido pela participação do público a cantar com Legend verso a verso. Enquanto dedilha o piano, John Legend olha à sua esquerda a sorrir e a pensar "já não tenho que cantar, eles fazem isso por mim", enquanto a tela estrelada envolvente se solidariza com o intimismo da coisa.
     
    O tema do final dos finais tem que ser arrebatador, isto é tem que ser Glory, tema de gospel tão vitorioso como a marcha dos afroamericanos liderada por Martin Luther King que inspira a canção e o filme respectivo, "Selma". No preciso momento em que o ponteiro dos minutos volta a cruzar-se com o das horas no número 12, o espetáculo termina.
     
    Na primeira parte, esteve o inglês Jack Savoretti, com um vozeirão à Joe Cocker, e um talento à vista, onde só sobra aquela frase recorrente de que "soube a pouco". Mas soube. Meia-hora não coube para tanta virtude iminente.