Júlia Pinheiro: “A primeira coisa que nos põem no biberão é a culpa”

    Quase vinte anos depois da primeira edição, a apresentadora e escritora vê regressar às livrarias um dos seus romances mais marcantes. “Não Sei Nada Sobre o Amor” acompanha quatro gerações de mulheres e explora a forma como o amor, ou a ausência dele, se transmite entre famílias.

    A apresentadora e escritora Júlia Pinheiro acaba de relançar o livro “Não Sei Nada Sobre o Amor” .

    Júlia Pinheiro garante que o título pode induzir em erro. O livro, que volta a ser  não é sobre a sua vida nem sobre as suas experiências amorosas. É antes uma reflexão sobre gerações de mulheres que cresceram sem aprender a expressar afetos.

    “Há muitas gerações que ficaram marcadas por esse desamor, pela impossibilidade de saber como é que se faz, como é que eu me aproximo de alguém e expresso amor”, explica a autora. “Não aprendi, não sei, não sou capaz, não vou a seguir. E depois mais três gerações andam um bocadinho embrulhadas com o mesmo problema.” 

    No centro da narrativa está Maria da Glória, uma mulher que cresce sem mãe e sem referências afetivas. “Tinha um pai que a amava muito, mas que não dizia. E ela não teve ninguém que lhe ensinasse o amor”, conta Júlia Pinheiro. 

    A autora descreve a protagonista como “uma sobrevivente” que procura apenas “safar-se”, numa época marcada por fortes limitações impostas às mulheres. 

    Ao longo de cerca de 70 anos de história portuguesa, o romance acompanha as mudanças sociais que transformaram a condição feminina. Júlia Pinheiro recorda que, durante grande parte do século XX, as mulheres viviam condicionadas por normas sociais e religiosas que restringiam a sua liberdade.

    “Até aos finais dos anos 60, as mulheres não sonhavam, não se projetavam. Depois dá-se o 25 de Abril e aí muda tudo”, afirma. “Descobrem que não só podem ter sonhos, como têm direitos.” 

    Outro dos temas centrais do livro é a culpa, uma característica que a escritora considera profundamente enraizada na experiência feminina.

    “A primeira coisa que nos põem no biberão é a culpa. Porque nós somos sempre culpadas de qualquer coisa”, diz. “Se alguma coisa falha, a culpa é minha.” 

    Apesar das dificuldades que enfrentam, as personagens de "Não Sei Nada Sobre o Amor" estão longe de ser retratadas como vítimas perfeitas. Júlia Pinheiro prefere construir figuras complexas, feitas de contradições e imperfeições.

    “As pessoas não são santas nem diabos. Somos feitos de uma série de coisas que são o produto das nossas circunstâncias”, sublinha. “Os erros são interessantes. É na falha que nós nos superamos ou não.” 

    Quase duas décadas depois da publicação original, a autora admite que releu o romance com receio. Temia encontrar uma obra envelhecida pelo tempo. A surpresa foi positiva.

    “Li com muito medo. Pensei que ia achar que era uma historinha da treta”, confessa. “Mas não. Gostei. Um bocadinho de pudor, mas gostei.” 

    A reedição surge depois da editora considerar que a obra continua atual. Para Júlia Pinheiro, essa decisão representa um reconhecimento especial.

    “Ver um texto reeditado é uma honra tão grande que eu ainda nem a assimilei bem”, afirma. “Significa que aguentou.” 

    Mais do que uma história de amor ou desamor, a escritora acredita que o romance funciona como um retrato íntimo da vida das mulheres portuguesas ao longo de várias décadas.

    “É um retrato de costumes”, resume. “Quis escrever a pequena história das mulheres, aquilo que estava na cozinha, como era estender roupa, como era sobreviver todos os dias.” 

    Com sete edições na publicação original e milhares de exemplares vendidos, “Não Sei Nada Sobre o Amor” regressa agora às livrarias para conquistar novos leitores e reencontrar aqueles que o descobriram há quase vinte anos.