Milhares de manuais amontoados nas escolas
Ministério da Educação quer que sejam reutilizados. Dirigentes escolares dizem que é quase impossível, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade.
Milhares de livros, cedidos pelo estado aos alunos do primeiro ciclo e devolvidos pelos pais no final do último ano letivo, estão amontoados nas escolas à espera que seja decidido o seu destino. O ministério da educação pretende que sejam reutilizados, mas os dirigentes escolares entendem que é praticamente impossível, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade.
Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares diz que obrigar à devolução não faz sentido porque "a maior parte dos manuais usados no primeiro ciclo têm em si atividades que são realizadas no próprio livro, como desenhos, pinturas, frases, etc, e naturalmente é muito dificil poderem ser reutilizados por ciranças de 7 ou 8 anos".
Entendimento diferente tem a tutela. A secretária de Estado adjunta e da Educação assume que a taxa de reutilização no primeiro ciclo é reduzida, mas Alexandra Leitão diz que é preciso criar hábitos: "nos primeiros anos, devido à natureza dos conteúdos dos manuais, será mais difícil a reutilização, mas temos de criar essa cultura, essa mentalidade, de que os livros são para devolver porque são algo que a criança utiliza e, sendo cedidos gratuitamente pelo Estado, devem ser passíveis de reutilização", explica.
A devolução é obrigatória, mesmo que muitos acabem por ficar empilhados nas escola, admite Alexandra Leitão: "muitos continuam nas escolas, sim, porque não há aqui uma alternativa. Os livros têm de ser devolvidos, mas não podemos, a todo o custo, distribuir livros que não estão em condições para outras crianças. Há muitas formas de as escolas reutilizarem os manuais (nas bibliotecas, por exemplo) e de ambientalmente se libertarem de papel em excesso. Cabe a cada uma decidir."
A CONFAP - Confederação Nacional de Associações de Pais não concorda e diz que sempre alertou para o que poderia suceder. O presidente, Jorge Ascenção, diz que "é muito pior o exemplo que se está a dar, com milhares de livros amontoados, apesar de a preoupação com a sustentabilidade ser saudável. Mas, nem sequer é uma verba assim tão grande, e uma vez que a sua reutlização não é fácil, os manuais do primeiro ciclo podiam ser oferecidos às famílias para as crianças poderem utilizar os livros à vontade e ficarem com uma recordação. A partir do segundo ciclo já é diferente, os manuais são diferentes e estamos a falar de adolescentes."
Além disso, Jorge Ascenção diz que se a prioridade é a sustentabilidade "há outras medidas a ponderar, como adotar os manuais em suporte digital. É preciso parar para pensar, avaliar as decisões que não foram corretas e ter a humildade de corrigir essa situação."
Já Manuel Pereira não vê inconveniente em que os pais fiquem com os livros dos primeiros anos de escolaridade dos filhos: "usámos a lei e o bom senso e, no caso dos livros que não estavam em condições de serem reutilizados, chamámos os pais que quisessem ficar com eles".
Os manuais começaram a ser distribuídos gratuitamente aos alunos do primeiro ano, há dois anos. No ano passado, a medida foi alargada até ao quarto ano e este ano até ao sexto.
A secretária de estado acredita que no segundo ciclo a taxa de reutilização será elevada. Alexandra Leitão lembra que no ano passado "30 mil manuais foram reutilizados, e neste ano letivo esse número subiu para 110 mil".
A devolução continua a ser obrigatória.
Quem quiser ficar com os manuais terá de os pagar, sob pena de não receber gratuitamente os livros no ano seguinte.
(notícia atualizada com a posição da Confap às 13h00)
