Morreu Wilko Johnson

    O guitarrista inglês, que esteve ligado aos Dr. Feelgood, tinha 75 anos.

    O histórico músico inglês Wilko Johnson morreu em sua casa, na noite passada, com 75 anos. O seu falecimento foi anunciado durante esta manhã nas páginas oficiais do guitarrista.

    O guitarrita projetou-se nos Dr. Feelgood, tendo criado depois, ainda no final dos anos 70, a banda debaixo do arco do seu nome, The Wilko Johnson Band, que levou a cargo até ao final da sua vida.

    Wilko Johnson também se destacou como ator, tendo feito parte do elenco da série de TV, "Game of Thrones".

     

    Wilko Johnson atuou com o seu trio no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em fevereiro de 2019 - a foto em cima alude a esse concerto. Na nossa reportagem desse espetáculo, é escrito: "A sua guitarra funciona como o pivot do combo, com um peso de comandante. Ao lado está um operário do baixo, que toca as cordas com um afinco devorador. Atrás, o baterista tem os tempos bem cronometrados, compenetrado no ritmo daquele blues-rock tão rotinado". Podem consulta aqui o link desta reportagem.

    Nesse mês de fevereiro de 2019, antes do concerto em Lisboa, a nossa rádio entrevistou Wilko Johnson. Recordamos a entrevista em baixo.  

    A primeira vez que veio a Portugal foi num concerto num lotado Pavilhão dos Belenenses, na capital, no ido ano de 1980. Wilko Johnson lembrava-se bem dessa vinda, na entrevista que nos deu nos nossos estúdios. "Eu vim para cá dois ou três dias antes, com a minha mulher e com o meu filho pequeno. Assim que cheguei, talvez estivesse bom tempo, não sei, mas soube-me muito bem. Quando andávamos na rua, as pessoas reconheciam-me. O que foi muito simpático". 

     

    Nos anos anteriores, na década de 1970, Wilko Johnson mostrou o seu talento como guitarrista rítmico nos pub-rockers Dr. Feelgood. "Quando a banda se separou, havia muitos rancores. Decidi afastar-me, para não ficar com ressentimentos, porque foi um grande projeto. Resolvi deixá-los para trás. Dois anos mais tarde, um amigo meu veio ter comigo porque vinha falando com o Lee Brilleaux [que fundou com Wilko Johnson os Dr. Feelgood e continuou no grupo] e me perguntou: 'porque não voltarem a tocar juntos?'. Ele disse-me que arranjaria um encontro para nós em Londres. 'Então, vai lá falar com o Lee'. Mas depois, conheci uma miúda e não fui (risos). [Esse encontro] jamais aconteceu. Nunca mais voltámo-nos a falar". 

     

    Outra experiência marcante para Wilko Johnson foi a sua passagem pelos Blockheads, a banda de apoio ao carismático Ian Dury. "Era uma grande banda. A minha função pertencia à secção rítmica, porque sou um guitarrista rítmico. Eles tinham uma das melhores secções rítmicas, com o Norman Watt-Roy no baixo e o Charley Charles na bateria. Foi brilhante também porque o Ian era um grande homem de espetáculo. Para mim, era bem porreiro estar na secção rítmica, atrás de alguém, sem ter que estar à frente. Passei um bom bocado com o Ian".

     

    Apesar do carisma de Ian Dury (1942-2000), Wilko Johnson também testemunhou alguns momentos de fragilidade no cantor. "Quando me pediram para ingressar nos Blockheads e fui ter com o Ian, estavam a gravar um álbum e já não davam concertos há alguns meses. Estávamos a conversar [nos camarins de uma sala de espetáculos] e o Ian estava sempre a desenhar diagramas num pedaço de papel. Às tantas, perguntei-lhe: 'estás mesmo assustado, não estás?'. Ele respondeu que sim, que estava. Ele estava tão nervoso e medroso com o facto de ter que voltar para a estrada novamente. 'Homem, porque é que estás tão nervoso?'. 'Não sei'. 'Não percebes, as pessoas adoram-te. Quando subires ao palco, vai ser fantástico, as pessoas vão adorar-te. Estás com medo de quê?'. Mas ele estava mesmo nervoso". 

     

    Em 2013, foi diagnosticado a Wilko Johnson um cancro incurável no pâncreas. Deram-lhe apenas nove a dez meses de vida. Com pouco tempo pela frente, organizou uma digressão de despedida em março e ainda gravou um álbum de adeus com Roger Daltrey (o vocalista dos Who), que quando fosse editado, Wilko supostamente já não estaria vivo. Mas o cancro de pâncreas de Wilko Johnson era tão raro que era neutralizável. E o músico curou-se, vivendo agora o seu longo período de bónus. "É uma coisa estranha. Fui diagnosticado com cancro, disseram-me que não me podiam ajudar. Não me podiam operar, não me podiam curar e eu tinha menos de um ano de vida. Na verdade, foi um dos mais fantásticos anos da minha vida. Quando tive cancro e a minha vida estava para acabar, foi um período maravilhoso para se tocar rock & roll. Eu estava numa posição em que não tinha futuro, nem amanhã. Nada, só escuridão. Era muito tarde para poder fazer algo que não tinha feito no passado. Estava somente a viver o momento, era assim que eu tinha de viver. Pensei: 'estou vivo agora. Existo neste momento'. Não costumamos fazer isto. Estamos sempre ocupados com isto e com aquilo e não nos apercebemos... E subir ao palco e tocar rock & roll, com esse pensamento de 'não há futuro, é só este momento', é a coisa mais importante no rock & roll”. 

    Apesar da carreira musical de mais de 40 anos, bastou um pequeno papel numa série televisiva para Wilko Johnson passar a ter um outro tipo de fama e de público. Essa série não era uma produção televisiva qualquer. Para os fãs da série medieval "Game of Thrones", Wilko Johnson é o macabro executor real Ilyn Payne… Mas que não tem sido chamado para matar mais pessoas, nas temporadas mais recentes. “Infelizmente, o cancro acabou com a minha carreira na Guerra dos Tronos, o que foi uma pena. Eu gostei muito! Mas foi espetacular fazer aquilo. Nunca tinha feito nada como ator. Nada! Quando me pediram para fazer uma audição, eu não fazia ideia que era algo tão grande”.  

    O facto da sua personagem não falar, porque a sua língua fora cortada, faz deste assassino profissional uma figura ainda mais sinistra. "Enviaram-me um guião e vi… “não tenho de dizer nada!”. O que era ótimo porque não tinha de decorar falas e coisas assim. Foi fantástico”. Conhecido pela sua criatividade sádica, inventando mortes sórdidas, qual terá sido a morte mais horrenda que a personagem Ilyn Payne terá feito? “Cortar a cabeça ao [ator] Sean Bean [a interpretar a personagem Ned Stark]. Tive de cortar a língua de alguém com uma faca quente. Isso foi muito estranho… Tínhamos uma grande cena num palácio ou algo do género, com o rei presente, e havia um coitado de um homem que estava a chateá-lo. E o rei mandou-me cortar-lhe a língua. Estávamos numa grande sala e eu estava do outro lado. Do meu lado oposto, estava o fogo, fogo verdadeiro. A câmara estava junto ao fogo e o que eu tinha de fazer era dirigir-me ao fogo e segurar a faca para a aquecer. Eu parecia um mauzão a andar com uma faca. Eu estava a pegar na faca, com verdadeiras chamas [ao pé], e estava a queimar-me. Aquilo doeu. E eu ali a fazer de durão, com a mão a queimar-se. Pelo menos, consegui manter a minha expressão. Foi muito difícil, se calhar a cena mais difícil que tive de fazer. Eu não queria começar a chorar".