MoteLx: o 20º ano a assombrar os cinemas de Lisboa
Festival cresce para 11 dias e começa nesta quinta-feira.
A 20ª edição do festival de cinema de terror MoteLx toma conta dos cinemas de Lisboa, São Jorge e Cinemateca, entre 3 e 13 de setembro. São 12 secções e numerosos filmes a desafiarem o sentimento de medo, sempre à espreita dos mais diversos ângulos.
Pedro Souto é um dos dois diretores do MoteLx, e que está ligado à sua criação. Nada melhor que esta conversa para enquadrar o cineéfilo ou qualquer interessado sobre o que nos espera neste festival.
Quão especial vai ser esta edição comemorativa?
Esta é a 20ª edição do festival. Começámos em 2007, já lá vão alguns anos. As coisas estavam bastante diferentes, especialmente no que diz respeito ao cinema de terror português. É uma das grandes diferenças que nós sentimos nestes 20 anos. Já passaram muitas curtas e também muitas longas-metragens portuguesas, recentes e antigas. E esta edição é a continuação desse trabalho. Passámos para 11 dias nesta edição especial. Passamos de sete para 11 dias, portanto haverá mais oportunidades para ver filmes, para conviver e para partilhar em comunidade esta coisa especial que é ver cinema em sala e especialmente cinema de terror, que movimenta não só muita gente, mas movimenta também muitas emoções de cada pessoa que assiste a um filme. E vamos também estender-nos até à Cinemateca Portuguesa. É a primeira vez que temos uma secção completa na Cinemateca Portuguesa, chama-se Lost in Europe, e vai recuperar alguns filmes da chamada epoca da Cortina de Ferro. Alguns países da Europa de Leste têm também a particularidade de terem algumas semelhanças a nível da indústria do cinema de género com Portugal - onde não existe indústria de cinema de género, às vezes nem existe indústria de cinema. Um pouco à semelhança do que temos feito com a secção Quarto Perdido, que faz também essa revisita a alguns filmes, tentamos recuperar alguns do esquecimento. Por exemplo, tivemos já uma homenagem ou uma retrospetiva da Solveig Nordlund e que este ano quisemos também, homenagear com um prémio Noémia Delgado. Vai ser o segundo prémio Noémia Delgado que vamos premiar e que é, vem no seguimento do primeiro do ano passado, que foi com a Gale Anne Hurd, a famosa produtora do Aliens, do Exterminador Implacável, Armageddon e do The Walking Dead, a série. Quisemos fazer esta homenagem e, a juntar-se a isso, temos também uma série de outras secções: cinema português em formato curto, e também um convidado especial, Sergio Martino, um dos mestres do giallo italiano. Vai ser um ciclo chamado Sergio Martino e o Acid Giallo. Tem esta particularidade de nos focarmos num tipo de cinema, muito famoso também pela sua saturação forte a nível das cores, e claro, essa procura pelo mistério, pela procura de quem é o assassino. E vai ser um dos destaques também, uma das homenagens também deste festival deste ano.
O alargamento para 11 dias é só este ano, ou é para continuar?
A ideia inicial é fazer 11 dias na 20ª edição, um pouco também para celebrar e para ver quem é que aguenta tantos dias de terror. Depois, logo se vê. É um pouco também como temos feito o Motelx. É um ano de cada vez, e ver como é que as coisas correm, o que é que se pode melhorar, mas queríamos muito que pelo menos estes 11 dias fossem já uma ideia de celebração desta 20ª edição.
No ciclo O Terror por Detrás da Cortina de Ferro, de que já falaste, encontramos formas de terror bem fora dos padrões e com sátira política. Há aqui várias formas de abordar o terror que são um bocadinho invulgares. Concordas?
É, não só por tentarmos alguma diversidade de países, mas precisamente isso que referiste de alguma diversidade de abordagens também. Nós temos esse tal carro que se alimenta de sangue [“Ferat Vampire”, de Juraj Herz]. Temos também um filme de lobisomens [“Werewolf”, de Leida Laius]. Temos também um filme chamado “The Singing, Ringing Tree da República Democrática Alemã, de 1957, todo feito com uma série de cenários, uma coisa mais performativa, mais ligada à parte do teatro, mas que tem uma capacidade de nos envolver absolutamente extraordinária, também cheia de cor e cheia de artesanato também nessa construção dos cenários. É uma história também excelente. E depois temos, se calhar, o grande destaque destes seis filmes, chama-se "Possession" e é um filme do Andrzej Zulawski, que também acaba por ser a nossa homenagem ao Sam Neill, que é uma das personagens principais, juntamente com Isabelle Adjani. É um daqueles filmes inesquecíveis, que acabou por ser uma inesperada incursão pelo terror, um terror mesmo a sério. Não é terror suave. São grandes interpretações de ambos os atores, com um foco numa relação difícil, com problemas neste casal e que nos leva para momentos perturbadores, que depois são misturados com alguma parte sobrenatural. É um daqueles clássicos que vale a pena, foi restaurado em 4K, portanto é um dos destaques desta secção.
Há também o terror, às vezes um pouco disfarçado de algum cinema mais de entretenimento, acaba por conseguir, se calhar, com mais facilidade no meio destes regimes, passar algumas mensagens que, se calhar, noutros filmes com menos tendência para coisas de género, não passem tanto. De facto, esses filmes trazem-nos essa época, que foi marcante e foi uma época muito opressiva, violenta, e que este filme retrata excelentemente e leva-nos um pouco também para essa época de uma maneira inesperada no que respeita a esta maneira também de fazer cinema de terror, que foge um bocado aos cânones habituais. Alguns deles só fizeram um filme de terror e fizeram depois outro tipo de géneros na sua cinematografia, o que nos leva também a essas leituras. A Cortina de Ferro já muita gente não conhece sequer essa designação, e era também uma época que queríamos retratar, acaba por ser aqui uma abordagem mais também histórica a este período, através dos filmes de terror e através dessas tais abordagens criativas e dessas mensagens, algumas subliminares, algumas mais em forma de metáfora.
Voltam a apostar no cinema iraniano atual. Já temos dois filmes – “Poultry Farm”, de Mohammadreza Ardalan, “Sunshine Express”, de Amirali Navaee – ambos com críticas política e social.
Nós este ano temos duas obras bastante diferentes, iranianas, e que nos surpreenderam pelas abordagens e pelas temáticas. A primeira, que vai estar na secção principal do festival, que é a secção Serviço de Quartos, chama-se "Poultry Farm", do Mohammadreza Ardalan, que é a história de um órfão que é apanhado numa rixa macabra entre dois latifundiários. Eles têm aviários, e trabalham também na agricultura. [O filme] tem uns laivos de western, porque se passa no campo, em zonas áridas, também com uma certa opressão. E temos uma criança que está ali no meio desta rivalidade e que encontra ali uma série de momentos macabros que nos trazem um Irão um pouco mais perdido. E há também essa questão de como é que nós lidamos com essa ganância e com essa violência que às vezes é intrínseca ao ser humano. E aqui, pelos olhos de uma criança, a coisa torna-se ainda mais perturbadora.
É uma criança curda, não é?
Sim, a criança é órfã, curda e está a trabalhar. Para sobreviver, está a ser explorada por estas pessoas.
E temos o "In the Sunshine Express" do Amirali Navaee.
O "In the Sunshine Express" tem uma abordagem absolutamente extraordinária, totalmente diferente. É um reality show que começa com precisamente os concorrentes a inscreverem-se para este programa misterioso, em que se passa todo numa carruagem de comboio. E essa carruagem de comboio acaba por ser uma alegoria kafkiana, muito à volta dessa coisa que é um regime totalitário e dessa opressão, desse controlo, e dessa desorientação que as pessoas acabam por sentir no meio dessas sociedades que nos cortam a liberdade. É um filme realmente fora do normal, que está aliás na nossa secção mais experimental, mais underground, mais surrealista, que é a Section X, e que dialoga com outro filme desta secção, um filme americano que se chama “Variations on Violence”, do Zachary Aaron Nichols, e que retrata as consequências psicológicas, o stresse pós-traumático, mas explorado na forma de filme de terror, de um piloto de drones. Simboliza também um trauma coletivo, aqui na forma mais imediata de um piloto de drones que se levanta todos os dias para pilotar um drone à distância, às vezes a milhares de quilómetros, para matar outras pessoas. Mesmo não participando diretamente nestas guerras, acabamos por também viver esse trauma constante, de um mundo em guerra, em vários pontos do mundo.
Presumo que “The Birthday Party - Histoires de la Nuit”, de Léa Mysius, é um dos filmes mais fortes da programação, com um elenco de luxo, com a Hafsia Herzi e a Monica Bellucci.
É um filme que esteve em competição em Cannes, que tem a Monica Bellucci num dos papéis secundários. É um daqueles filmes que nos deixa bastante inquietos, num dos subgéneros do terror, o home invasion. É uma noite como as outras nesta família, que é interrompida, com a visita de dois misteriosos visitantes, suspeitos e perturbadores. E a partir daí desenrola-se uma série de jogos, de uma certa violência.
Será um filme claustrofóbico, no sentido em que era também o “Funny Games” do Michael Haneke?
Sim, está precisamente nessa categoria. Às vezes, estes vilões são muito carismáticos, que nos fascinam com as suas características magnéticas e que, até ao fim, ficamos sempre na expectativa se são ou não maus, e como é que vão reagir as pessoas boas ou as personagens boas.
Há também uma atenção especial ao realizador berlinense Jörg Buttgereit, no ciclo Falar Sobre a Morte (Nunca Matou Ninguém) – há ainda um filme sobre o Herzog. Parecem ser filmes peculiares.
Sim, é verdade. Isto foi um desafio lançado pelo Goethe Institut ao MoteLx. O tema era a morte e nós tentámos perceber como que é que poderia ser a abordagem da nossa parte ou esta escolha ou esta sugestão. O Buttgereit é um daqueles casos bastante peculiares, porque ali nos anos 80 começou a fazer filmes sobre necrofilia. Foram filmes à época muito chocantes. Ele foi, acabou por ser, claro, posto de lado pelo mainstream, porque não havia nada de mainstream nos filmes dele. Até tem algum experimentalismo.
E ele era muito novo, não era.
Sim, era muito novo. No caso dele, fala muito dessa dificuldade da parte de sociabilizar de algumas pessoas, de nos sentirmos sós, de nos sentirmos perdidos e com esses momentos. O filme macabro tem também um experimentalismo e um visual bastante inesperado e cinematográfico, e que vamos tê-lo também cá para falar dessa experiência: como é que foi fazer estes filmes na altura, como é que foi também, o que é que isso influenciou na sua carreira. E vamos juntar também o filme do Herzog, portanto, a sua versão do Nosferatu. E vamos depois ter uma conversa sobre esta temática da morte. Eu penso que também acabamos por estar no Cinema Ideal para falar sobre este tema. É um tema que fascina toda a gente, às vezes repele, outras vezes atrai, não sabemos bem porquê, mas acaba por ser aquela segurança de estarmos numa sala de cinema e de saber que as coisas estão bem e que no fim vai ficar tudo bem. O festival também quer discutir estas temáticas mais profundamente.
Como habitual, temos aqui também cinema português, com uma atenção especial ao José de Sá Caetano, com três filmes que são uma trilogia.
José de Sá Caetano é um daqueles nomes que não é muito conhecido. Não digo que seja esquecido, mas para a maior parte das pessoas, se calhar, nada diz. É uma trilogia que, em termos formais, tem uma série de maneiras de fazer cinema bastante diferentes e extraordinárias, para essa cinematografia desta altura do cinema português e, penso que posso dizer, na história do cinema português. É um autor mesmo a redescobrir. Os filmes dele têm uma série de influências também de género, mas não são só isso. Acabam por também por comunicar entre eles. Há ideias até meio pré-apocalíticas, de alterações climáticas.
Há um certo ecoterror, não há?
Há um certo ecoterror, exatamente. São filmes que, como disse, comunicam entre eles e que pela primeira vez os vamos exibir em formato de trilogia. Têm sido exibidos esporadicamente, mas sempre independentes uns dos outros. Quisemos trazer o “Ruínas no Interior”, de 1977.
Os três filmes passam-se em ambiente mais rural, não é?
Sim, são os três rurais. O "Azul Azul" tem uma parte que começa na cidade. Mas sim, têm essa ruralidade. Não é um folk horror, mas tem essa componente da ruralidade. São filmes que aconselho vivamente. São obras extraordinárias.
Agora que chegámos às 20 edições de Motelx, como é que tudo começou? Lembras-te?
Sim, lembro. Nós começámos, aliás, antes de 2007. Foi em 2003, em que quisemos fazer um cineclube dedicado ao cinema de terror. Fizemos uma primeira sessão que chamámos a sessão experimental número um, que aconteceu no Cinema King. Hã, e foi o filme "Ichi the Killer", do Takashi Miike. Passou à meia-noite e meia, legendado em inglês apenas. E a partir daí, começou a nossa atividade cineclubista. Até que chegámos a um momento, precisamente na Cinemateca, em que aconteceu um ciclo intitulado "Zombies: Os Mortos-Vivos", que fizemos uma retrospetiva do cinema zombie desde 1940, com o "White Zombie", até à altura que era 2005, com o "Land of the Dead", do George Romero, que esteve quase, quase para vir apresentar o seu filme a Lisboa. A partir daí, as coisas acabaram, eu penso que para nós mudaram um pouco e questionámos se não seria mais fácil juntar tudo num só momento no ano. E a partir daí, [surgiu] a ideia de fazer o festival. O que depois nos apercebemos é não é mais fácil, pode ser mais divertido, mas não é mais fácil, é muito mais trabalho. E o MoteLx nasceu em 2007. Abrimos com um documentário chamado "The American Nightmare", em que quisemos precisamente, a par com outra retrospetiva que fizemos da série "Masters of Horror", era uma série de televisão, em que Mick Garris, o produtor, realizador e argumentista também, convidou todos os mestres do terror da altura e quisemos fazer assim um apanhado, um ponto de situação do terror nessa primeira edição. E a partir daí foi ano a ano. A seguir, na edição seguinte, veio o José Mojica Marins, o Zé do Caixão, depois de ter estreado um seu filme. 30 anos depois de fazer cinema, fez um novo filme, que estreou em Veneza. Veio depois o John Landis, o Stuart Gordon, o George Romero, o Eli Roth. Mais recentemente, já novo, novo sangue com o Ari Aster, o Lee Wannell, o Brandon Cronenberg, o filho do Cronenberg. Tem também uma filmografia impressionante, com muitas ligações ao universo do pai, pelo menos dos primeiros filmes.
Não por acaso, em 2009, na terceira edição do festival, lançámos duas secções portuguesas, de cinema português. A primeira foi um prémio dedicado às curtas-metragens, que é o Prémio MoteLx para Melhor Curta-Metragem Portuguesa. E a segunda foi a secção Quarto Perdido, que se dedica precisamente a essa arqueologia do que é que poderão ser essas raízes do género.
