Música portuguesa cada vez mais interventiva

    Tendência tem aumentado, não só graças a Capicua ou Xullaji, mas também aos Cara de Espelho, à Luta Livre, aos Linda Martini, a Samuel Úria ou, de forma conceitual, os Mão Morta. Mas há mais.

    A música portuguesa tem estado cada vez mais ativista, e os últimos dez anos têm-no confirmado. A rapper Capicua é uma das figuras mais contestárias. Fazer uma música para a MC portuense é o mesmo que tomar uma posição. A personagem da banda desenhada de Quino, Mafalda, raramente ficava em silêncio, fosse numa situação doméstica, fosse a ouvir as notícias na rádio. Capicua também. Nos domínios do lar, a rapper queixa-se do “25 de Abril que ainda não fizemos dentro de casa, porque nas últimas cinco décadas muito fizemos pela igualdade entre homens e mulheres na lei. E muitas evoluções fizemos, obviamente, porque o país é muito diferente. E o desenvolvimento foi enorme. Mas ainda há muito a fazer dentro de casa, na divisão do que são as tarefas domésticas, daquilo que é a valorização do trabalho que as mulheres têm no cuidado aos mais novos e aos mais velhos também”, diz-me Ana Matos, em entrevista que lhe fiz em 2024. É esse 25 de Abril doméstico por realizar que motivou Capicua a reverter no feminismo o tema de sensibilidade laboral de Sérgio Godinho, ‘Que Força É Essa’, em que “semeia o inconformismo” a uma “amiga” e não a um “amigo” do original de 1971. Canta Capicua, numa letra mudada, “Vi-te a trabalhar o dia inteiro/A limpar a cidade dos homens/Por amor ou por pouco dinheiro/Ficam velhas as tuas mãos jovens”.

    Capicua

    A artista portuense já tinha pegado noutra semente de Sérgio Godinho, mas de forma ainda mais encorpada. Falo de ‘Parto Sem Dor’, que parte de uma espécie de lenga-lenga de Sérgio Godinho, que Capicua desenvolve para uma canção sua. Esta tema sobre a maternidade foi publicada no terceiro álbum de Capicua, “Madrepérola”. “Essa canção fala do processo de gestar e de parir. De como isso é uma forma de renascimento existencial e identitário nosso de uma forma muito íntima. Quando estamos grávidas, há uma espécie de luto e de despedida do que fomos e de um renascimento para uma vida diferente e nova. Tive muita vontade de fazer essa música, não só porque ouvia muito essa música do Sérgio Godinho que eu conhecia desde criança e me soou totalmente diferente, nesse lugar do luto e do renascimento. E agora eu vou-me embora / e embora a dor / não queira ir já embora / agora eu vou-me embora e parto sem dor”, enquadra Capicua. A música ‘Parto Sem Dor’ seria usada para o movimento contra a violência obstétrica nas maternidades em Portugal. Capicua foi uma das ativistas deste movimento.

    Capicua

    O seu álbum mais recente, “Um Gelado Antes Do Fim Do Mundo”, é mais um tomo que é um todo de intervenção. O tema ‘Chiaroscuro’ vai a todo lado, numa razia geral ao modo do ‘Medo do Medo’ (um dos seus temas mais icónicos). Capicua desliza pelas redes sociais: “Faz um scroll / Mediterrâneo, um beijo no iate para a fotografia / Faz um scroll / Migrantes num barco lotado naufragam na travessia”. “Aquilo que está nesta letra do ‘Chiaroscuro’ é o que está no nosso feed de Instagram ou Facebook ou TikTok todos os dias. Só que assim escrito e declamado, sai fora do ecrã e parece que ganhou uma outra dimensão em que o impacto é potenciado não só pela música, como pela força poética das palavras”, enquadra-me Capicua numa entrevista do ano passado.      

    Outra música de flagrante ativismo do álbum “Um Gelado Antes Do Fim Do Mundo” é ‘Making Teenage Ana Proud’, onde Capicua se põe de frente ao machismo ascendente. “Não é culpa do progresso, esse ranço reacionário / Por cada grunho, um punho, em sentido contrário / No combate e no debate, seremos adversário”. Nesse tema, Capicua referencia a feminista Rita Lee: “Eu acho que isso foi o que fez a Rita Lee, que manteve a sua adolescente interior sempre muito orgulhosa, porque nunca se instalou e sempre foi muito fiel a si própria e à sua vontade artística e à sua opinião. Até ao final da vida, honrou essa feitiçaria de pôr o tempo e a arte a seu favor. Acho que ela é um dos exemplos de como envelhecer a fazer música na cultura pop, na indústria do entretenimento, sem cair nas armadilhas do patriarcado, de ter que desaparecer ao primeiro sinal de envelhecimento, ou de tentar lutar contra o tempo desesperadamente”.


     
    A consciência cancioneira de Capicua extravasa para outras artistas, como a fadista Aldina Duarte, para quem escreveu todas as letras do álbum “Metade Metade”. Nasceu o fado ecologista, com o tema ‘Araucária’. Atendendo à mentalidade ambientalista de Capicua, como prova o seu projeto Mão Verde. Aldina Duarte também tem essa consciência, numa veneração à mãe-natureza. Assim canta: “Arauca´ria / Rainha desta floresta / Rodeada de giesta / Parece estar num altar”. Assim fala a fadista, em entrevista que lhe fiz em 2024: “Olhem lá para uma árvore, vejam lá a sua importância na nossa vida e como nós nos tornamos mais humanos se formos mais sensíveis à natureza. Esta coisa de perder o vínculo com a natureza para passar a tê-lo com uma máquina pode até ser perigoso e tornar-nos mais insensíveis. O problema é haver crianças a serem formadas por uma máquina, emocionalmente falando. As ligações delas são através do What’s App e não do recreio. A natureza está presente para não nos esquecermos da nossa essência, porque nós vimos dali. Somos seres vivos em que os sentidos são fundamentais. Houve uma altura em que achava que era importante a literatura, a poesia, a música para o ser humano se tornar mais pensante, para desenvolver a sua inteligência e sensibilidade. É verdade. Mas agora já estamos numa fase em que temos que ir mais atrás. Mais do que um livro, se calhar faz falta dar um mergulho no mar”.

    No fado, tem crescido, aliás, essa tendência mais interventiva. Carminho gosta tanto do fado tradicional que gosta de remexer para dar a sua colherada, como na versão que faz de 'Pedra Solta', em que muda o género sexual na letra original de António Campos. A personagem do velho fado ‘Pedra Solta’ deixa de ser a mulher frágil que encanta o poeta. Carminho transforma essa personagem frágil... num homem. Para esta mudança de género, a cantora teve a devida autorização. Em 2023, Carminho falou-me deste fado. “Há qualquer coisa de muito tradicional naquele poema: "a fonte", "corar", a menina que está indefesa, com esta temática de uma outra época, de uma relação homem-mulher, em que o homem tem que proteger porque ela, coitadinha, fica "coradinha". Cuidado, olha "os rouxinóis", essa coisa da paternalização da mulher. Eu tenho os meus ideais, mas acho que devo fazê-lo através da música. "Não vás à fonte sozinho, que os rouxinóis do Mondego, ao ver-te tão coradinho, ficam em desassossego".  É um toque de humor e uma relação com a história do fado de um certo machismo que perdurou e que está a mudar”.

    Carminho

    Por mares amnióticos navega a fadista Sara Correia, na canção de 2023, ‘Madrugou’, onde o renascimento da mulher pode ser só um outro caminho que escolheu para si. ‘Madrugou’ é, para Sara Correia, uma ode à mulher como uma força da natureza. “A mulher é a grande força da humanidade, na minha perspectiva. Nós conseguimos sentir dores horríveis, conseguimos ultrapassar coisas que eu acho que os homens não conseguem. Acho que tem a ver com o ADN. Somos muito mais fortes e sinto sempre que a mulher luta mais e que tem que lutar sempre mais para mostrar o que vale. E se eu puder cantar o resto da minha vida a mulher, eu vou cantar o resto da vida. E acho que toda a gente o deveria fazer. É maravilhoso. E o Madrugou é exatamente isso. É a força de uma mulher que ama”, explica-me a fadista.

    Sara Correia

     
    Apesar da ditadura do Antigo Regime ter tentado abraçar o fado como uma imagem de Portugal que gostaria de projetar, o género musical tem um passado de magnetismo pela liberdade, que fintou a censura, assinalado em vários fados de Beatriz da Conceição, no tema ‘Abandono’ de Amália Rodrigues ou no fado contra a Guerra Colonial de Fernando Farinha, ‘Natal Português’. Manuel João Vieira (mitificado nos Ena Pá 2000 e nos Irmãos Catita), como profundo conhecedor da canção boémia portuguesa, lançou o álbum “Anatomia do Fado”, onde dá vida a músicas anti-salazaristas, bem ao seu estilo personalizado, como 'Fado Anarquista' (de Joaquim Campos) ou 'Ser Fascista' (de Artur Gonçalves). “Fascismo, mas que praga mas que mal / Apareceu em Portugal em 28 de Maio / Fascismo vieste de Comba Dão por um ditador aldrabão com nariz de Papagaio”, canta MJ Vieira nos tempos de hoje, em ‘Ser Fascista’. 
     
    Já está no ADN da banda, mas os Linda Martini têm mandado cada vez mais farpas nos últimos anos, incluindo nesta matéria dos riscos cada vez maiores de fascismo. Por isso, o político português mais conotado com a extrema-direita, André Ventura, tem uma música do quarteto de André Henriques a si dirigida, ‘Faz-se de Luz’. O jornalista do Observador, Miguel Pinheiro, pergunta a André Ventura: “Há dias escreveu esta frase nas redes sociais: ‘Deus confiou-me a difícil mas honrosa missão de transformar Portugal’. Quando é que isso aconteceu?”. Essa é a premissa do vídeo de ‘Faz-se de Luz’, em que os Linda Martini cantam “olha como é lindo / facho de luz mas tudo apaga / diz tudo e o seu contrário / nada”. Esta música faz parte do álbum de 2024, “Passa-Montanhas”, onde se alinha contra a guerra ‘A Cantiga É’, onde os Linda Martini trocam as armas pelos beijos e “por mais canções de amor”.

    Os Linda Martini não fazem barulho apenas pela democracia ou pela paz. No tema anti-fascista de 2021 ‘E Não Sobrou Ninguém’, a igualdade racial é outra causa levantada, sempre no modo satírico do vocalista André Henriques. “A tua pele é cor de pó / A tua pele é cor de mofo / A tua pele é uma cor só / Um tom qualquer, eu nem te oiço”. A solo, André Henriques, visualizou por trás dos óculos escuros de uma mulher o que se passa entre aquelas quatro paredes, no tema ‘Maria Odete’. “Estava a cantar uns la la las por cima, à espera que alguma coisa me chamasse para a canção, para eu perceber sobre o que é que ela falava. E de repente saiu-me essa frase: ‘a Maria Odete saiu à rua de óculos de sol num dia de chuva’. Gravei logo aquilo, não percebi exatamente porque é que aquilo me tinha aparecido na cabeça. Enfim, mais do que ser a intervenção divina, lembrei-me um bocadinho mais tarde que eu tinha tocado há pouco tempo no Teatro Circo em Braga, que é uma das salas mais bonitas do nosso país, e tinha aparecido nas notícias uma história amplamente divulgada de uma colaboradora que tinha sido assassinada pelo ex-companheiro ou ex-marido, por um crime que ainda se continua a chamar passional. Essa história continua a ser a história de muitas outras mulheres. Aquilo na altura chamou-me particularmente a atenção para já, porque é um sítio onde eu já estive várias vezes, não só a solo, como com os Linda Martini. É uma casa que eu conheço, pessoas com que eu conheço, mas não conhecia a pessoa em causa. Mas quando tu ouves uma estatística de que não sei quantas mulheres foram assassinadas por ano em Portugal, os números e as estatísticas com que somos tantas vezes bombardeados que às vezes ficamos insensíveis. Mas quando tu percebes que aquilo acontece ao teu lado, que são pessoas com quem te cruzes na rua, que são familiares teus, é uma coisa que está mesmo mesmo ao nosso lado. E aí, de repente, fez com que esses versos aparecessem na minha cabeça”, explica-me André Henriques, em entrevista realizada em 2024.

    André Henriques

     
    Embora de forma mais subtil, Márcia também aborda a violência conjugal no tema amargurado ‘Quem Cá Está’: “No segundo em que abres mão te assenta um mal-estar”. O tema faz parte do último álbum de Márcia, “Ana Márcia”, e conta como cúmplice vocal, no papel de amiga solidária, Catarina Salinas, dos Best Youth. Na introspeção de uma reflexão sobre namoro, o alerta e a causa também brotam.

    De forma bem mais direta, Luís Varatojo gosta de “chamar os bois pelos nomes” no seu projeto Luta Livre, sem receio do engajamento, num discurso sem pruridos, que é transversal a várias causas. Com um passado punk nos Peste & Sida, em que, em parceria com João San Payo, se mandavam abanões na consciência cívica, como no tema ‘Caixa Colorida’, em que já se criticavam as “fake news” em 1989, Varatojo parece ainda mais participativo civicamente, através de uma entidade mais individual, como a Luta Livre. Sem embelezamento de metáforas, ‘Panela de Pressão’ (de 2023) é o exemplo de sensibilidade social, contra o abate do poder de compra do povo – um tema bem atual nesta crise provocada pela guerra no Irão. Em 2023, para explicar a margem totalmente livre de Luta Livre, Luís Varatojo lembra-me que “a principal característica do punk é ser direto e dizer o que tens a dizer e a tocar sem paninhos quentes. É a célebre frase: ‘faça você mesmo’. Não dependes de ninguém e fazes as coisas como queres. Mas não vem só daí, vem também da minha educação, da forma como cresci e do que se foi passando à minha volta. Em Portugal, as coisas já foram mais diretas”. 

     

    O sensor social do rapper Xullaji (antigamente, Chullage) está em polvorosa com a cada vez maior disparidade planetária entre norte e sul e entre ricos e pobres, como bem atesta o álbum do seu projeto Prétu, “Xei di Kor”, de 2023. Enquanto muitos de nós desenhavam as cores do arco-íris na frase “vamos ficar todos bem”, Xullaji questiona “Todos Quem”, no tema ‘Todos Quem’. Interpreta o rapper: “Vira o disco e toca o mesmo / Vira a câmara para ti e tira / Uma selfie... tira / Enquanto alguém atira / Tira, tira, o teu silêncio também atira”, numa música em que o artista da Margem Sul observa os que não nunca vão ficar bem, porque vêm do hemisfério depauperado. Em entrevista de 2024, ao falar do espírito do tema, Xullaji anota que “Todos os fins-de-semanas, as pessoas vão a um centro comercial comprar uma t-shirt nova numa loja qualquer, ou vão comprar um gadget eletrónico; ou procuram um novo carro elétrico. As pessoas supostamente progressistas vão comer o seu abacate e bebem o seu café ‘roasted’ de não sei onde. E essas matérias vêm de onde? Vêm de uma série de lugares transformados em não-lugares, transformados em não-Estados, para que essa exploração se possa eternizar nesse chão, nesses lugares, nessas terras”. Xullaji dá o exemplo de um país africano esvaziado. “O Congo [antigo Zaire] já estava a ser rebentado por causa do coltan, que serve os microprocessadores mais rápidos. Foi com isso que conseguimos criar telemóveis mais pequenos e microprocessadores mais rápidos. Agora, com este capitalismo verde, [o Congo] ainda se vai esburacar mais, porque é um dos sítios de maior concentração do cobalto”.

    Xullaji

    Xullaji junta esforços com outra figura bem interventiva da música portuguesa recente, A Garota Não, no dueto de ‘Não Sei O Que É Que Fica’. O problema de habitação é o assunto que aflige, “Desalojamento local para alojamento local”, em que se recupera uma palavra infelizmente cada vez mais usada por nós nas cidades: a gentrificação. Tal como acontece com Xullaji ou Capicua, a simples aproximação de Garota Não ao microfone é uma mensagem ativista que se levanta. ‘Levante-se uma Escola’, canta Cátia Mazari Oliveira (o verdadeiro nome d’A Garota Não), levantando a causa animalista contra as touradas: “Que se mate a tradição se a tradição mata sem razão”. Esse tema é do álbum de 2025, “Ferry Gold”, onde sobressai também a canção ‘Este País Não É para Mães’, em que A Garota Não dá luz às vulnerabilidades das mães perante a falta de cuidados de saúde e a maternofobia no mundo do trabalho: “Tu pediste licença / E leram-te a sentença”.


     
    Como quase qualquer rapper, Carlão (dos Da Weasel) está talhado para tomar posições socio-políticas. O seu álbum autobiográfico deste ano, “Quinta-Essência 75/25”, conta com vários temas bem interventivos, como o primeiro avanço do disco, ‘Na Loucura’. "Privilégio do abastado / Sistema de saúde morto / Incentivamos o privado / Subimos o imposto / Para o mais necessitado / Habitação já é miragem / Um luxo descontrolado". No refrão, Carlão diz mesmo: "A ditadura já esteve mais longe e há aviso". Outro tema que tenta arrebitar consciências é ‘Passo A Passo’, em que Carlão critica o consentimento das pessoas face aos riscos que a nossa democracia corre: “Apatia como profilaxia / Escolhemos a broa para aguentar o dia”. “É nesses dias em que eu escrevo canções como o Passo a Passo, em que estou muito próximo de me passar da cabeça, porque eu não vejo resposta de uma forma clara e palpável. Eu diria que o amor será sempre a resposta, mas tem que haver muita inteligência para não cair nas armadilhas”, enquadra Carlão, em entrevista que me deu este ano. 

    Os Fogo Fogo não se ficam pela festa africanada. Lançam também mensagens como neste tema ‘Um Casa Pa Morá’, de 2024, em que lembram a falta de habitação, tal como Xullaji e A Garota Não. O tom é de funaná e de festa em ‘Um Casa Pa Morá’, mas o assunto é sério. 

    O supergrupo Cara de Espelho é, de raiz, um projeto interventivo. Logo no álbum de estreia homónimo, algumas das letras de Pedro da Silva Martins só podem retratar o líder do partido Chega, André Ventura, como na música ‘Elefante no Hemiciclo’: "É ver para crer, espalhafatoso / Muito ruidoso, o elefante / Berra bastante no hemiciclo”. Outro tema, outro retrato deste político de extrema-direira. Parece ser ele o 'Dr. Coisinho': “O dr coisinho vem coisificar o medo / O dr coisinho saudosista, lazarento”. Os Cara de Espelho fazem também uma crítica aos vícios dos corredores do poder, que alargam a mais quadrantes políticos, como na música ‘Testa de Ferro’: “Quero aliciar quem queira alinhar num cambalacho / Em troca de um pé de meia, de uma casa ou de um bom tacho”.

    Pedro da Silva Martins sabe bem do que é feita a liberdade. Graça a ele, Lena D’ Água volta a dar voz a músicas com um magnetismo pela liberdade, depois de um passado muito interessante nesse campo, à frente da Banda Atlântida, com escrita do malogrado Luís Pedro Fonseca: ecologista em ‘Nuclear Não, Obrigado’, animalista em ‘Jardim Zoológico’ e satírica da classe política em ‘Demagogia’. No segundo álbum da trilogia com Pedro da Silva Martins, “Tropical Glaciar” (de 2024, Lena D’Água canta um tema pacifista como ‘Chá’ ou ainda ‘Carne Vegan’, com picante sexual e uma consciência ambientalista. “Tem a ver com a minha preocupação com a pegada ecológica, porque eles quando falam na agricultura, no pior da agricultura e da criação intensiva dos abacates que chupa a água toda e o azeite que vem de oliveirinhas pequeninas só por causa da agricultura intensiva, e depois, daqui a uns anos, isto fica tipo deserto. No caso da ‘Carne Vegan’, a minha preocupação com a pegada ecológica vai muito mais além da torneira que está a pingar, da reciclagem, ou do duche mais rápido. A pegada ecológica da pecuária, sobretudo a criação de carne de boi, é duas a três vezes maior do que todos os aviões e autocarros e automóveis juntos”, diz a cantora em entrevista em 2024.

    Lena D'Água

     
    Nunca antes os Mão Morta tinham tido tão empenhados politicamente como no seu álbum de 2025, “Viva La Muerte”. A banda minhota, em particular, Adolfo Luxúria Canibal, usa a sátira para abordar as teias de aranha do fascismo e da autocracia e o seu cheiro a mofo. Em modo de empolgamento coletivista, a lembrar o embalo musical de José Mário Branco, sentem a democracia a definhar no tema ‘A Liberdade’: “Numa idade avançada vive a mãe da Liberdade / Acomodada num quarto de uma casa de saúde / Toda a gente discute os cuidados paliativos / Que lhe são ministrados com dinheiros do Estado”. Na música ‘Deus Pátria Autoridade’, Luxúria Canibal faz uma razia ao ditador que açambarca o Estado com a sua imagem e personalidade: “O herói mítico anuncia o regresso do pai primordial heróico do passado. O comandante das hordas primitivas. O chefe de família. O chefe da nação. O pai que se admira, que submete, que castiga. O pai autoridade. O pai lei. O pai líder”. Como parte deste todo, os Mão Morta olham também para a crescente militarização e para os riscos da guerra em ‘Ratoeira Bélica’

    Com o contributo decisivo das letras de Regina Guimarães, os Três Tristes Tigres desamarraram a barca e o seu espírito ativista para o álbum de 2025, “Arca”, sobre as tormentas dos miseráveis que fogem da fome, no Mediterrâneo, no Atlântico – quem sabe na selva de Darién (se forem latino-americanos, o fatalismo é o mesmo) -, num musical abroad way e a fundo, e não da Broadway. “Somos a ruga no mapa, o vento fora do rumo”, canta Ana Deus em ‘Exodus’, num disco de navegação musical pela ‘Rota da sede’, tema em que palavras destas ecoam: “ao mar, ao sol, ao vento, à vez, mas sobretudo ao relento”. O ativismo dos Três Tristes Tigres está mais evidente do que nunca, clamando-se pela paz em ‘Guerra’ - “Aos crimes chamam bravura”, lamenta Ana Deus – e pela ecologia em ‘Animália’ – “Não há bicho ou vegetal que a nafta não mate”. Na entrevista aos Três Tristes Tigres que realizei em 2025, Ana Deus assume que “nós sempre tivemos a preocupação de falar das fragilidades, mas este [disco] sim está mais exposto, nota-se mais do que é que estamos a falar, não está tão sujeito a interpretações mais subjetivas, mais isto ou mais aquilo, portanto acho que se é mais declarado”.   

    Três Tristes Tigres

    Quem parece estar também a possuir-se como músico mais interventivo é Legendary Tigerman. Vai mandando recados em palco. E o tema de 2023, ‘Losers’, é já um aviso deste músico, que não se quer calar diante do caos atual. Em entrevista que lhe fiz em 2025, Tigerman confirma-me esse estado de espírito: “Acho que o mundo está a picar-nos a todos com o que está a acontecer. Alguns revoltam-se, outras pessoas estão felizes, mas eu acho que a maior parte dos artistas está um bocado picada com tudo o está a acontecer no mundo e com todas estas injustiças e com toda a violência que acontece a céu aberto e à vista de toda a gente e que parece que ninguém consegue parar. E, portanto, acho que, de alguma forma, quem manda no mundo está a deixar cair a máscara. Parece que entrámos num filme, não sei se de ficção científica, se de terror. Acho que isso, de uma maneira ou de outra, há de me influenciar. No outro dia estava a pensar que no último disco tinha feito algumas coisas políticas e eu nunca tinha sido propriamente político na minha carreira. Já tinha havido uma movimentação nessa direção com o ‘Losers’ e de facto imagino que possa também haver mais coisas desse género”. 
     

    Legendary Tigerman

    No album de 2024, "2000 AD", Samuel Úria não faz só reflexão introspetiva, é um disco também de intervenção política. No tema-título, Samuel Úria, que até é cristão, lamenta “O puritano tão cosmopolizado /
    Já nem separa a sua igreja do Estado”. Mas é ‘Canção de Águas Mil’, o seu tema mais abrilista de sempre. O músico de Tondela reconhece que sim, quando conversei com ele em 2024: “Esta é a canção mais literal e que vai mais ao cerne da própria questão e da própria celebração. E, sobretudo, também é uma canção que aviva, não tanto o dia da felicidade, que foi o 25 de abril, mas todos os dias de infelicidade que forçaram a que houvesse essa revolução. Porque acho que são esses dias que estão a ser mais esquecidos, porque, de repente, andamos em conversas de surdos de quando é que foi a revolução, quando é que ela se concretizou, quando é que ela se cumpriu. Qual é o dia em que nós devemos celebrá-la? Que derivas é que houve dali que, de repente, afunilaram para a liberdade e a democracia constitucional e liberal com que nós vivemos? E muitas vezes essas discussões, que são inúteis e são facciosas, mesmo de facção, e que são puramente políticas e, às vezes, até muito demagógicas, fazem-nos perder um bocado a noção de que devemos falar daquilo que nos forçou a que houvesse um 25 de Abril. Essa canção celebra e lamenta. É uma espécie de memorial daqueles que sofreram e, sobretudo, daqueles que, sofrendo, quiseram ter voz para que o sofrimento parasse para os restantes”.  

    Samuel Úria

    Maria Reis, dos Pega Monstro, já deu várias mostras do seu ativismo. Um exemplo superior é a sua sensibilidade laboral em 'Fado do Salineiro', em 2024, um drama mortal num dia de trabalho, ou a capacidade de se colocar no lugar do outro. Intervenção é compaixão. “Chega janeiro / Foi à cova com o coveiro, seu pai / Vai salineiro / Foi mais drama que proveito”.