Negócio da canábis procura novo rumo na Tailândia quatro anos após legalização
A Tailândia retirou a canábis da lista de estupefacientes proibidos em junho de 2022, desencadeando uma rápida expansão da produção.
Quatro anos depois de a Tailândia se ter tornado o primeiro país asiático a descriminalizar a canábis, o setor encolheu, está mais regulado e cada vez mais orientado para fins medicinais.
A Tailândia retirou a canábis da lista de estupefacientes proibidos em junho de 2022, desencadeando uma rápida expansão da produção, do comércio e do turismo associado à planta.
Na loja Weeden, no bairro central de Khlong Tan, em Banguecoque, o ambiente assemelha-se mais ao de uma perfumaria ou loja de cosméticos, bem iluminada, com vários recipientes onde os clientes podem inspecionar diferentes variedades de canábis sativa. Nos rótulos, leem-se nomes como "arroz doce com manga" e "melhor que sexo".
Como grande parte das lojas no país, também esta oferece todo o tipo de produtos relacionados com a canábis, desde a erva propriamente dita a 'snacks' e até cosméticos e cremes. Existe também uma área de fumo para os clientes, com música e uma Playstation 5.
Fundada em 2022, a WeedeN é uma marca de retalho de canábis que se expandiu rapidamente, tornando-se uma das maiores cadeias de dispensários do país, com entre 50 e 58 lojas.
“É como a 7-Eleven da canábis. Estamos em todos os grandes pontos turísticos”, diz Kai, de 25 anos, empregado na loja que preferiu não ser identificado. “Esta zona tem muitos residentes estrangeiros e turistas. Recebemos clientes de todos os países, das Maldivas à China”, conta à Lusa.
Entretanto, um casal de turistas chineses analisa os produtos na loja. “Vais mesmo fumar?”, pergunta a rapariga. “Claro, aqui é legal”, responde o homem.
Os chineses representam atualmente a principal nacionalidade que visita o país, com a Associação de Agentes de Viagens a prever sete milhões de visitantes este ano. Com a posse e o consumo na China estritamente ilegais - como em praticamente todos os países asiáticos -, muitos aproveitam para experimentar a nova especialidade local.
Segundo representantes da indústria, desde a legalização em 2022, milhares de lojas abriram em todo o país, sobretudo em Banguecoque e nos principais destinos turísticos, atraindo investidores, agricultores e empreendedores para um dos setores emergentes mais promissores da economia tailandesa.
"Estudei Direito mas entrei neste negócio praticamente no primeiro ano em que foi legalizado. Parecia uma boa oportunidade. Nos primeiros anos houve muito investimento e o negócio estava em plena expansão", afirmou à Lusa, Win Sinhaseni, diretor executivo da distribuidora NagaExpress.
Para Yasmin Pathan, comercial da empresa Min-D Green, o primeiro contacto com a indústria surgiu quanto frequentava a universidade, através de um projeto de investigação sobre canabinoides, numa altura em que a legislação começava a permitir este tipo de estudos.
"A canábis contribuiu para o crescimento do turismo durante muito tempo, muito antes da legalização. Fiz parte da primeira vaga do retalho, logo após a descriminalização. Havia lojas a faturar centenas de milhares de bahts por dia e, por vezes, mais de um milhão de baths (26,614 euros)", destacou.
Mas os anos de crescimento acelerado deram lugar a um enquadramento mais restritivo, apresentado pelo Governo em agosto deste ano.
Enquanto anteriormente as lojas de canábis precisavam apenas de uma licença comercial para vender os produtos, as novas regras exigem que os compradores sejam submetidos a uma consulta médica, por um profissional de medicina tradicional tailandesa, com clientes a ter que apresentar informações clínicas, e obter uma prescrição válida na loja.
As licenças das lojas existentes expiram em 2028 e a renovação depende da conversão dos estabelecimentos em unidades médicas autorizadas. Mantêm-se ainda restrições à venda a menores de 20 anos e a grávidas, bem como limitações à atividade comercial junto de escolas, parques e templos, acompanhadas por restrições à publicidade do setor.
“As medidas levaram ao encerramento de milhares de estabelecimentos, especialmente entre operadores incapazes ou relutantes em cumprir os novos requisitos. Quem operava nas zonas cinzentas teve mais problemas”, apontou Sinhaseni à Lusa.
Para Pathan as novas regras representam uma mudança profunda para os pequenos operadores. "As lojas abriram por todo o lado e só depois vieram os regulamentos. Agora enfrentam uma transição para funcionarem quase como clínicas, com custos muito mais elevados", afirmou.
"Sinceramente, parece que somos cobaias enquanto o Governo tenta perceber como esta indústria funciona", disse.
Após cerca de três anos à frente de uma loja em Banguecoque, Sinhaseni acabou por fechar o estabelecimento quando o contrato de arrendamento terminou e o proprietário do imóvel começou a recear as incertezas regulatórias. "Mas, na prática, para quem trabalha na indústria, não é assim tão grave. Basta cumprir os regulamentos", nota.
Para estes empresários as alterações estão a acelerar a transição de um mercado inicialmente dominado pelo consumo recreativo para uma indústria mais focada na canábis medicinal e nas exportações.
"Enquanto formos o único mercado legal na Ásia e nesta parte do mundo, o potencial será enorme", afirmou Sinhaseni. "Só esse facto torna esta indústria extremamente atrativa", reforçou.
A presidente executiva da Associação de Comércio de Cannabis, Marika Graham-Woods, afirmou à Lusa que estão em curso “investimentos significativos para desenvolver produtos de qualidade farmacêutica” no país capazes de cumprir os padrões internacionais mais exigentes.
Representante da indústria da canábis medicinal no Reino Unido, Graham-Woods considera que a Tailândia está bem posicionada para ultrapassar “a União Europeia e a América do Norte juntas” no número de utilizadores.
Sinhaseni destaca que a canábis é hoje mais aceite pela sociedade tailandesa, sobretudo entre as gerações mais jovens. "Muitos jovens hoje em dia nem querem beber álcool ou fumar tabaco. Preferem fumar canábis", afirmou.
"O mundo está a avançar demasiado depressa. As pessoas precisam de abrandar um pouco e acho que a canábis é uma boa forma de o fazer", concluiu.
