“Nico e Sonhos de Papel”: a imaginação de uma criança como refúgio num mundo em guerra
Novo espetáculo de marionetas cruza dança e teatro de marionetas para abordar a liberdade, a infância e a capacidade de sonhar perante a destruição.
Uma criança vive numa cidade em guerra, procura referências que desapareceram e encontra na imaginação uma forma de continuar a sonhar e a brincar. É a partir desta ideia que nasce "Nico e Sonhos de Papel", o novo espetáculo de Magnum Soares, que cruza dança e teatro de marionetas. A criação chega ao Museu da Marioneta, em Lisboa, entre 22 e 25 de outubro.
Em entrevista às nossas rádios, o diretor artistico Magnum Soares explica que o espetáculo nasceu da necessidade de refletir sobre a infância em contextos de guerra e de destruição, a partir das imagens de crianças que surgem nas notícias.
"Elas não deixam de ser criança por estar ali, naquele lugar completamente destruído. De alguma forma, não deixam de sonhar, não deixam de brincar», sublinha o criador.
A partir desta reflexão, o espetáculo propõe um olhar sobre a imaginação como gesto de liberdade. A personagem Nico transforma o que encontra à sua volta, recorrendo à criatividade para viajar até outros mundos, mesmo quando a realidade parece não deixar espaço para a esperança.
Embora tenha como ponto de partida a guerra, a criação procura abordar um tema particularmente difícil sem perder a dimensão poética e o carácter familiar. A dramaturgia foi construída para permitir diferentes leituras, tanto por crianças como por adultos.
«A guerra transforma as pessoas em números. Elas deixam de ser pessoas e tornam-se estatísticas», observa Magnum Soares, que pretende devolver humanidade a essas imagens, lembrando que muitas das vítimas dos conflitos são crianças.
Mais do que representar diretamente a violência, *Nico e Sonhos de Papel* acompanha o percurso de uma criança que procura a casa, os pais e o lugar de conforto que perdeu. É nessa procura que a imaginação ganha espaço e permite construir outras realidades.
Um espetáculo sem palavras
A ausência de texto falado é uma das características centrais da criação. A narrativa desenvolve-se através da dança, das marionetas, da luz, do som e dos objetos, convidando o público a construir a sua própria interpretação.
"Eu acredito mesmo na força do silêncio. Ele pode dizer muito mais do que a palavra", afirma Magnum Soares.
Para o criador, o silêncio permite que os elementos cénicos e as expressões das marionetas contem a história sem determinar antecipadamente o significado de cada imagem. O público é, assim, convidado a participar na construção do universo de Nico através da sua própria imaginação.
A cenografia combina papel kraft, bambu e um sistema autónomo de iluminação, pensado para transformar o espaço através das cores e das sombras. A simplicidade dos recursos técnicos permite também que o espetáculo seja apresentado fora dos circuitos convencionais, incluindo escolas e outros espaços culturais.
A intenção é que a criação possa adaptar-se a diferentes contextos e encontrar novos públicos. «Cada lugar e cada espectador fazem com que a obra respire de forma diferente», explica o artista.
A criação de Magnum Soares chega a Lisboa
Com direção artística de Magnum Soares, que assina igualmente a cenografia e a construção das marionetas, o espetáculo é interpretado pelo próprio criador e por Francisca Poças. Giacomo Scalisi assegura o apoio cénico e a dramaturgia, Teresa Gentil assina a música original, Sara Leme é responsável pelos figurinos e Camila Veríssimo pela ilustração.
O criador destaca o contributo da equipa artística para a identidade final do projeto, nomeadamente a interpretação de Francisca Poças, o olhar de encenação de Giacomo Scalisi e a música de Teresa Gentil, que assume um papel particularmente importante numa obra sem palavras.
Em Lisboa, "Nico e Sonhos de Papel" estará no Museu da Marioneta de 22 a 25 de outubro, com sessões para o público escolar nos dias 22 e 23 e apresentações abertas ao público em geral nos dias 24 e 25. O percurso continua na EscolaNova – Centro de Artes da Bordeira, a 7 e 8 de novembro, e na Casa Novo Bowing, em Odemira, a 15 de novembro.
A coprodução do Museu da Marioneta/EGEAC e da Lavrar O Mar – Cooperativa Cultural conta com o apoio da Fundação GDA e com apoio à residência do Espaço AbraçAr-te e da EscolaNova – Centro de Artes da Bordeira.
Para Magnum Soares, a chegada ao público representa o culminar de um longo processo de criação e o início de uma partilha que pretende envolver espectadores de diferentes idades. Um convite a olhar para a infância em cenários de destruição e a descobrir, através da imaginação, a possibilidade de continuar a sonhar.
