Prince, o sobredotado da música, morreu há dez anos

    Mais um inédito retirado do seu cofre: o tema 'With This Tear' já se ouve.

    Prince Rogers Nelson, para todos nós só Prince, morreu há dez anos, a 21 de abril de 2026. Prince não era o Principezinho. Este superhomem da música só merece o valor aumentativo de principezão. O seu principado musical é mais fascinante que muitos reinos. Sem o peso do trono de rei, foi um músico solto entre géneros, sempre na vertigem da rebeldia e na iminência de algo maior no futuro. O cadeirão de rei seria para ele a estagnação, a veterania, o fim alcançado. Típico dos inconformistas, os fins de Prince estavam sempre por alcançar. O melhor era o que vinha a seguir. A coroa podia esperar.

    Para assinalar o décimo aniversário sobre a sua morte, é retirado do seu famoso cofre do complexo de estúdios caseiros de Paisley Park, o tal Vault, mais uma canção inédita, With This Tear. A gravação engaveta dos estúdios de Prince foi registada em 1991. A composição foi entregue mais tarde à voz de Céline Dion, que a lançou em 1992.     

    Vivemos ainda a ressaca da inesperada morte de Prince, um dos músicos que mais modernizou a pop, se não mesmo o mais influente deles todos.

    Filho de pianista, Prince Roger Nelson nasceu em Minneapolis em 1958. Autêntico multi-instrumentista e sobredotado para a música, Prince tocava baixo, guitarra, bateria ou piano. E foi sempre gravando vários instrumentos.

    Prince era o one man’s band, que bem cedo, desde o álbum de estreia de 1978, "For You", controla todos os aspectos da gravação e assume ele próprio o papel de produtor.

    Mas é ao terceiro álbum, "Dirty Mind", de 1980, que Prince desenvolve a sua imagem de híbrido, em que não é bem homem, nem mulher; não é bem gay nem hétero; não é bem negro, nem branco. O álbum "Dirty Mind" aborda temas tabu como ménage à trois, incesto ou sexo oral, e torna mais evidente a identidade musical à parte de Prince.

    Este álbum de libertação sexual é a primeira grande aclamação da crítica, sobretudo da Rolling Stone. A afirmação da sexualidade de "Dirty Mind" também acontecia nas actuações explosivas de Prince que beijava as suas próprias instrumentistas enquanto se exibia de slips.

    Mas é só ao quinto álbum, de título “1999”, editado em 1982, que Prince rompe bem no mercado e finalmente se torna um fenómeno comercial. Em um ano, e só nos Estados Unidos, “1999” vendeu um milhão de cópias. A canção ‘Little Red Corvette’ foi um dos dois primeiros temas de um artista afroamericano a obter intenso AirPlay na MTV, a par de ‘Billy Jean’ de Michael Jackson. Isto em 1982. A forte imagem também ajudou a exposição televisiva de Prince.

    Adepto de bandas mistas, sempre compostas por homens e mulheres, Prince foi sempre muito aberto à livre criatividade dos seus músicos, o que o ajudou a regenerar-se sempre através das longas jams com os seus instrumentistas.

    Ridicularizando o seu metro e 57 de altura em vez de ser ridiculizado, Prince foi um superhomem da música: ele era ao mesmo tempo Jimi Hendrix, James Brown e Michael Jackson. Sabia bem mexer-se em palco, era um guitarrista exímio e um cantor dotado para os falsetes.

    O combinado natural entre funk, soul e pop de Prince ganha uma outra dimensão no álbum de 1984, “Purple Rain”. O disco é a banda sonora para aquele que é uma espécie de filme autobiográfico do mesmo nome. Mas o álbum sobressai bastante mais que o filme. E é um sucesso à escala mundial. Em poucos dias, "Purple Rain" já tinha vendido um milhão de cópias.

    Acompanhado pela banda Revolution, Prince passa a usar mais overdubs em "Purple Rain". É durante a digressão mundial de "Purple Rain" que Prince se recolhe mais e deixa de dar entrevistas. Excêntrico, sim. Recatado, também.

    O tema-título ‘Purple Rain’ é um dos raros êxitos pop que se dá ao luxo de ter mais de 8 minutos. 'Purple Rain' é uma canção emocionalmente tão grandiosa que não se dá pela sua longa duração.

    Prince era um músico altamente exigente, perfeccionista em todos os pormenores de um espetáculo, incluindo no guarda-roupa dos seus próprios músicos.

    Sempre inconformado, Prince cria a sua editora, a Paisley Park. “Around the World in a Day”, de 1985, é o primeiro álbum com o selo da editora que o próprio Prince criou. O disco tem uma promoção diferente, sem single de antecipação, para que o público ouvisse o álbum por inteiro primeiramente.

    A progressão musical de Prince fez-se a ritmo veloz, com canções cada vez mais intricadas, mas sem perderem nunca o sentido radiofónico, de que é exemplo ‘Raspberry Beret’.

    Segue-se em 1986 o álbum mais funky “Parade”, que é mais uma excelente banda sonora para outro fracasso cinematográfico em que Prince participa, de nome “Under the Cherry Moon”. “Parade” é o álbum de despedida da banda Revolution, marcado pelo hit ‘Kiss’, que a Warner na altura rejeitava por achar que soava a maqueta. A canção foi acrescentada no álbum à última hora, por insistência de Prince, e foi outro êxito mundial do cantor.

    Prince começa a usar mais o silêncio como um elemento da sua música. E no meio de uma enorme criatividade, oferece canções a outros, como ‘Manic Monday’, dado às Bangles.

    Em 1987, sai o álbum “Sign o'the Times”, que é tão aclamado pela crítica como "Purple Rain". O duplo álbum esteve para ser triplo, e só não o foi por imposição da editora. O tema-título, ‘Sign o'the Times’, é um comentário duro de Prince sobre o tempo actual, cuja letra domina o videclipe.

    Prince era um músico dançante, bafejado pelo dom raro de escrever canções em qualidade e em quantidade. Quis o destino que várias versões se tornassem mais populares que os próprios originais de Prince como ‘I Feel for You’ interpretado por Chaka Khan ou, em 1990, o enorme sucesso de ‘Nothing Compares to U’ cantado por Sinead O’Connor.

    Porém, a carreira de Prince continuava de vento em popa. O álbum “Lovesexy”, mais virado para as pistas de discoteca, é brindado pelo êxito do single ‘Alphabet Street’. O músico norte-americano aceita ainda o desafio de Tim Burton para complementar com várias canções a banda sonora do filme Batman composta por Danny Elfman.

    Em 1991, Prince lança o seu 13º álbum de estúdio, o ambicioso “Diamonds And Pearls”, gravado com a banda New Power Generation. E é com esta mesma formação que Prince dá o seu primeiro concerto em Portugal, no antigo Estádio de Alvalade, em Lisboa, em 1993. É neste ano que o cantor se despede do seu nome artístico de Prince, ano em que lança a compilação “The Hits”, que tem como um dos inéditos uma das suas canções mais rockers de sempre, de nome ‘Peach’. Os gemidos sexuais ouvidos nesse tema são da actriz Kim Basigner.

    Nos anos 90, Prince foi introduzindo o rap na sua salada de géneros. O músico foi-se tornando mais espiritual e amoroso na abordagem das canções ao sexo.

    A abdicação do nome Prince e o uso de outras designações baralha o público. Prince usou um símbolo, esteve para ser Victor e tornou-se no artista anteriormente conhecido como Prince. A produção de álbuns torna-se mais vertiginosa, à medida que os êxitos vão rareando. 

    Pelo meio, a relação com a editora Warner detiora-se e Prince chega a inscrever a palavra “Slave” [“Escravo”] na face, em protesto contra a falta de controlo sobre o seu próprio reportório.

    A 21 de abril de 2016, o mundo tornou-se menos colorido quando Prince foi encontrado morto no seu complexo caseiro de estúdios, em Paisley Park.

    Genial, eclético e autor de uma música sempre luminosa, a superprodução artística de Prince levou-o a editar em vida nada mais nada menos que 39 álbuns de estúdio. Prince chega a editar dois álbuns no mesmo dia, como aconteceu em setembro de 2014 quando lançou “Plectrumelectrum” com a sua banda feminina 3rdeyegirl e o disco “Art Official Age”.