"Purple Rain" de Prince faz 40 anos
Exuberância de um génio, na omnipotência do seu talento colossal.
A 25 de junho de 1984, há precisamente 40 anos, Prince juntava mais uma obra-prima, o álbum “Purple Rain”, a uma discografia que era já um tesouro, onde cintilavam os álbuns “1999” (de 1982) e “Controversy” (de 1981).
Foi uma carreira inteira a pôr-nos a dançar. Artisticamente, “Purple Rain” não é o auge, porque Prince pluralizou-o numa cordilheira de picos, sobretudo nos loucos anos 80. Mas “Purple Rain” é o álbum a que o mundo mais aderiu e que mais gosta de recordar.
Ridicularizando o seu metro e 57 de altura em vez de ser ridicularizado, Prince foi um super-homem da música: ele era ao mesmo tempo Jimi Hendrix, James Brown e Michael Jackson. Sabia bem mexer-se em palco, era um guitarrista exímio e um cantor dotado para os falsetes.
O combinado natural entre funk, soul e pop de Prince ganha uma outra dimensão no álbum de 1984, “Purple Rain”. O disco é a banda sonora para o filme do mesmo nome. Mas o álbum sobressai bastante mais que o filme, e é um sucesso à escala mundial. Em poucos dias, "Purple Rain" já tinha vendido um milhão de cópias.
O tema-título 'Purple Rain' é um dos raros êxitos pop que se dá ao luxo de ter mais de 8 minutos. 'Purple Rain' é uma canção emocionalmente tão grandiosa que não se dá pela sua longa duração, condenada à eternidade, com varinha mágica em qualquer éter radiofónico, em quaisquer headphones. A balada é um épico emocional, no fervor do risco da travessia da amizade para algo maior. O beijo seria o paraíso, onde caem flocos de púrpura.
Se em ‘Purple Rain’ Prince sonha com púrpura, noutro dos temas emblemáticos do álbum de 1984, ‘When Doves Cry’, o músico idealiza outra cor rara, o violeta, ou um oceano de violetas em flor, na tensão entre namorados, entre pombos de pouca paz. O vídeo é o retrato clássico e redundante da letra e a mera reprodução de algumas cenas do filme “Purple Rain”. Mas percebe-se o misto de Marlon Brando e de James Dean a correr nas veias da personagem de Prince, o motard alienígena e desenquadrado, fogoso de desejos e de romance, mas enfiado numa espiral de revoltas. O vídeo parece pálido perante a pujança da música, a faiscar de pormenores simples que funcionam monstruosamente bem, incluindo o loop da batida que artilha toda a canção.
Acompanhado pela banda Revolution, Prince passa a usar mais overdubs em “Purple Rain”. É durante a memorável digressão mundial de "Purple Rain" (1984-85) que Prince se recolhe mais e deixa de dar entrevistas. Excêntrico, sim. Recatado, também. Adepto de bandas mistas, sempre compostas por homens e mulheres, Prince foi sempre muito aberto à livre criatividade dos seus músicos, o que o ajudou a regenerar-se sempre através das longas jams com os seus instrumentistas. Os Revolution foram a banda que o acompanhou neste período ao vivo, onde se salientava a guitarrista de 20 anos de idade, Wendy Melvoin, que era então uma espécie de segundo rosto de Prince com quem interagia irmãmente.
O videoclipe de 'I Would Die 4 U' é um retrato em bruto dessa energia ao vivo que ia em palco na Purple Rain Tour. Sempre em modo de subversão com a versão de estúdio, sente-se a tal jam de fulgor funk, em aquecimento, até rebentar a escaldar na música propriamente dita, como um bigue-bangue de felicidade. Prince entra num maniqueismo biblíco de palavras - “Make you good when you are bad” - para o que norteia verdadeiramente, a mulher que o apaixona, mesmo que isso implique uma entrega incondicional. A canção é mais uma pérola pop que valeu mais umas quantas platinas ao álbum “Purple Rain”.
Esse bigue-bangue da felicidade entra nos domínios da transcendência celeste na faixa de estreia do disco, que abria os concertos, ‘Let's Go Crazy’, o seu hino da alegria. O corpo de Prince rodopia em palco como as suas mãos rodopiam pela guitarra elétrica, voltando a encarnar os ícones do passado como uma espécie ainda mais evoluída, um homo sapiens sapiens sapiens, a glorificar os seus antecedentes homo sapiens sapiens. Prince é possuído por si mesmo, o próprio, como um deus das seis cordas como Jimi Hendrix, fazendo as caretas faciais e teatrais de Little Richard, enquanto se desdobra em coreografias com os seus pares e em cânticos.
