“Qualidade” da gordura da barriga pode revelar risco cardíaco 

    As características da gordura podem explicar doenças das artérias do coração, revela um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

    Uma investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) concluiu que as características da gordura da barriga, e não apenas a sua quantidade e localização, podem explicar doenças das artérias do coração, foi hoje divulgado.

    Liderado pela investigadora Jennifer Mancio, o estudo, publicado em agosto na revista científica International Journal of Obesity, revela que a “qualidade” da gordura da barriga revela risco cardíaco que o Índice de Massa Corporal (IMC) não deteta.

    “O IMC e o perímetro da cintura medem quanta gordura temos, mas não como ela é. Duas pessoas com a mesma quantidade de gordura podem ter riscos completamente diferentes”, explica Jennifer Mancio, citada num comunicado da FMUP enviado à Lusa.

    O trabalho recorreu à radiómica (um campo da radiologia que transforma exames de imagem médica em grandes quantidades de dados) por tomografia computorizada (TAC), técnica que funciona como uma biópsia virtual, em que algoritmos de inteligência artificial extraem da imagem centenas de características do tecido, como a densidade e a textura, que não são visíveis a olho nu.

    A equipa analisou exames de 1.736 adultos sem doença coronária conhecida para estudar a gordura subcutânea, ou seja, a que fica logo abaixo da pele e que se consegue beliscar, bem como a gordura visceral, que envolve os órgãos dentro do abdómen, e a gordura abdominal total.

    Através dessa técnica, os cientistas chegaram a características que revelam diferenças ocultas entre indivíduos, bem como entre homens e mulheres.

    De acordo com a FMUP, os investigadores identificaram uma gordura com textura mais heterogénea, associada à presença de calcificação nas artérias coronárias.

    A calcificação é um marcador de aterosclerose, a acumulação de placas de gordura e cálcio nas artérias do coração, e de maior risco de enfarte.

    Os dados revelaram também diferenças pronunciadas na estrutura da gordura abdominal entre homens e mulheres.

    “Quando a gordura abdominal se torna muito heterogénea na sua textura, isso funciona como um sinal de alerta para a presença de calcificação nas coronárias. A gordura não é toda igual. O que a torna perigosa não é tanto o sítio onde está, mas as características que apresenta. Nos homens, até a gordura subcutânea, que tendemos a considerar protetora, já tem características de gordura de risco. Isto pode ajudar a perceber por que razão, em média, os homens têm enfartes cerca de 10 anos mais cedo do que as mulheres”, explica Jennifer Mancio.

    Com base nestes resultados, a investigação concluiu que a radiómica poderá ser aplicada em larga escala para conhecer a qualidade da gordura, seja qual for a sua localização.

    Segundo a investigadora, “ao aproveitar TAC já pedidas pelos médicos por outros motivos, esta análise não implica custos nem radiação adicionais para os doentes”.

    “No futuro, a integração desta tecnologia nos programas de imagem poderá ajudar a identificar mais cedo quem tem características da gordura com maior risco de calcificação coronária e a personalizar a prevenção e o tratamento de pessoas com obesidade”, concluiu.

    O estudo foi realizado no âmbito do projeto SAFE-CT e financiado pela Bolsa CUF D. Manuel de Mello, da Fundação Amélia de Mello.