Quando uma menina quer ser pirata, os preconceitos vão ao fundo

    “A Menina Que Queria Ser Pirata”, com encenação de Miguel Sermão e texto do escritor Ondjaki, aborda temas como o bullying, a discriminação de género e a proteção do ambiente.

    E se uma menina quisesse ser pirata? E se, ao entrar num navio, descobrisse que nem todos estavam dispostos a aceitar que uma mulher pudesse fazer parte daquela tripulação? É a partir deste sonho pouco convencional que nasce “A Menina Que Queria Ser Pirata”, um espetáculo que transforma uma aventura marítima numa reflexão sobre preconceitos, inclusão e crescimento.

    Em entrevista, o encenador Miguel Sermão explica que a intenção é abordar questões sérias através de situações concretas, próximas do universo das crianças. O objetivo é que os mais novos se reconheçam nas situações apresentadas, percebam quando alguém está a ser posto de parte e compreendam que também têm poder de escolha e voz.

    O bullying é um dos temas centrais da peça e surge através de pequenos comportamentos que, muitas vezes, passam despercebidos, mas que podem transformar-se em atitudes de discriminação. Para Miguel Sermão, é importante que as crianças consigam identificar esses comportamentos e perceber que aquela forma de agir não é correta.

    A protagonista, Martina, representa precisamente o desafio às convenções. O encenador quis contrariar a associação tradicional da pirataria à figura masculina e dar espaço a uma menina que sonha com aventuras, descoberta e liberdade.

    Para concretizar essa ideia, Miguel Sermão desafiou o escritor angolano Ondjaki a construir uma história para a infância. Uma colaboração que surgiu de uma relação de proximidade e da admiração do encenador pelo universo literário do escritor, que aceitou prontamente o desafio.

    Mas a viagem de Martina é muito mais do que uma aventura de piratas. É também uma metáfora do crescimento e dos obstáculos que todos encontramos ao longo da vida. Entre ilhas e desafios, a protagonista vai descobrindo novas possibilidades, ultrapassando dificuldades e acrescentando novas experiências à sua personalidade.

    O mistério que acompanha a viagem é outro dos ingredientes da narrativa, e Miguel Sermão prefere não revelar demasiado, deixando aos espectadores o prazer da descoberta.

    Em palco, são apenas três os intérpretes - Maria Mendes, Sara Cipriano e Xavier António - que dão vida a todo o universo do navio pirata. A transformação dos atores, os adereços e a imaginação do público permitem multiplicar personagens e construir uma tripulação que vai muito além dos corpos presentes em cena.

    Apesar de ser dirigido a crianças a partir dos três anos, o espetáculo reserva também um convite aos adultos para reencontrarem a capacidade de brincar, imaginar e sonhar, tantas vezes esquecida à medida que crescemos.

    "É não reprimir isto, é deixar sonhar, viver e imaginar", defende Miguel Sermão, sublinhando que preservar a criança interior é também uma forma de transformação.

    “A Menina Que Queria Ser Pirata” está em cena no Teatro da Comuna, em Lisboa, até 20 de dezembro. Uma aventura para os mais novos, mas também para todos os adultos que ainda acreditam que a imaginação pode ser um grande tesouro.