Shawn Mendes recebido "em casa" de braços abertos
O luso-descendente celebrou dez anos de carreira na MEO Arena, em Lisboa. Houve homenagem a Diogo Jota, "orgulho em ser português" e palavras sobre Gaza.
Shawn Mendes regressou aos palcos após um período de recolhimento, autorreflexão e autodescoberta, que foi motivado por questões relacionadas com a saúde mental. Episódios de ansiedade e ataques de pânico levaram-no, em 2022, a cancelar a digressão "Wonder", circuito que passaria por Lisboa em 2023.
Honesto com a sua vulnerabilidade, o que é, na verdade, um heroico sinal de força, o luso-descendente nunca escondeu a batalha interna dos fãs. "Shawn", o álbum que editou em 2024, é um manifesto cru disso mesmo. Chegou com o tom confessional e sincero de quem abre o espaço da intimidade emocional com quem o escuta.
Ontem a arena lisboeta (que estava à pinha) foi também esse espaço - um lugar autêntico de partilha de quem acabara de chegar a casa. “Tenho aqui muita família de Portugal esta noite. Vim cá algumas vezes quando era novo mas nestes últimos dias estive perto da costa. E quando estava a olhar para a água tive mesmo a sensação de que estava a voltar a casa. Sempre me debati com o sentimento de pertença. E quando venho a Portugal sinto que pertenço. Obrigado por isso”, disse Shawn, filho de pai algarvio e mãe canadiana. “Sinto muito orgulho em ser português. Os portugueses são muito amáveis”, acrescentou, às tantas, arrancando gritos em massa do público que o acolheu “em casa” de braços abertos.
O músico, energético e sempre de sorriso aberto, orquestrou as emoções na sala ao longo de 17 canções. E fê-lo, claro, sempre muito bem suportado por um coro eufórico de milhares que nem por um segundo deixaram a alegria esmorecer. Houve gritos, saltos, ovações, troca de afetos de parte a parte, fogo de artifício cruzado, momentos mais introspetivos, tributo a Diogo Jota, uma ode de fé às novas gerações e palavras sobre Gaza.
Ora com a guitarra nos braços, ora mais solto - Shawn deu a voz aos temas com a energia de quem está fortalecido, revigorado. "A música pode realmente ser um remédio. Há dois anos sentia que não fazia ideia de quem era. Há um ano não conseguia entrar num estúdio sem entrar em pânico absoluto. Por isso, ter agora 12 belas canções finalizadas parece uma bênção", confidenciou quando editou o disco mais recente.
Pois bem. Certo é que o poder curativo da música transparece no palco onde está Shawn Mendes. Ao longo do concerto, o luso-canadiano, claramente grato por voltar à estrada, intercalou canções mais antigas com as mais recentes - todas elas na ponta da língua dos milhares que encheram a arena até quase transbordar.
Dois corações nos ecrãs laterais e a palavra “amor” projetada no ecrã central indicavam qual seria a mensagem da passagem do músico por Lisboa: o amor acima de tudo.
O périplo pelos marcos discográficos arrancou com um pulo temporal ao passado, com a “relíquia” upbeat 'There's Nothing Holdin' Me Back' que editou em 2017 com "Illuminate" (o segundo álbum que lançou). O concerto arrancou no pico da energia, com toda a arena a pular e a cantar.
"Lisboa, como é que estão?", gritou Mendes a todos os que ali estavam - alguns com cartazes nas mãos outros com corações erguidos. Todos visivelmente felizes com o reencontro. As declarações de amor ao público português foram recorrentes e fortemente aplaudidas. "Adoro-vos", ia dizendo o músico sempre que podia, saltando por duas vezes para o meio do público para distribuir abraços e cumplicidades com quem conseguiu ficar nas linhas da frente.
'Wonder', 'Treat You Better', 'Monster' e 'Lost In Japan' seguiram-se no alinhamento. Shawn Mendes aproveita o momento para gabar “o volume português”. "Estivemos agora em Espanha. Eles também fazem muito barulho. Já sabíamos que quando viéssemos a Portugal seria uma competição. Obrigado por terem vindo", acrescentou, nesta altura praticamente abafado pelos gritos.
A MEO Arena escuta depois 'Isn't That Enough' e 'Heart Of Gold', agora com Shawn Mendes vestido com a camisola 21 da Seleção Nacional com o nome de Diogo Jota atrás. Foi a homenagem ao futebolista que morreu em julho na sequência de um trágico acidente de viação. 'Heart of Gold' é também a canção que dedica a um amigo que também já partiu.
"Escrevi esta canção para um amigo meu que morreu quando era novo", explicou, referindo-se a Deijomi, o tal amigo que morreu há uns anos na sequência de uma overdose.
"É a música mais bonita que toco todas as noites porque é quando posso dizer-vos que se perderam alguém, seja recentemente ou há mais tempo, esta é a vossa oportunidade de cantar para eles. É a vossa oportunidade de celebrar essas pessoas. Se estiverem a recordar alguém, guardem essa pessoa no vosso coração", disse a quem tinha aos pés e ao redor, virando-se depois de costas para o público para reforçar o tributo ao jogador português. O momento emocionou quem estava na sala.
Shawn Mendes homenageia Diogo Jota durante o concerto no MEO Arena.pic.twitter.com/XBgjMNS2to
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Shawn Mendes wearing a Portugal team shirt with the name of Diogo Jota ?? pic.twitter.com/ym0NeOWhKm
— Shawn Mendes Updates ?? (@TheMendesSource) August 29, 2025
Canadian signer Shawn Mendes pays tribute to Diogo Jota at his show in Portugal pic.twitter.com/D2J0AUokhW
— Moby (@Mobyhaque1) August 28, 2025
'Señorita' (canção que partilha com Camila Cabello) volta a aumentar a temperatura da arena. O coro de milhares acompanha a voz do luso-descendente que grita “vá lá, Lisboa” antes de cantar 'Ruin'. Após o segundo “mergulho” na plateia, Shawn Mendes regressa ao palco com a bandeira portuguesa nas mãos, colocando-a, com orgulho, no teclado à vista de todos.
Em 'Never Be Alone', ergue a guitarra, sorri, mete a mão ao peito e troca cumplicidades com a banda que o acompanha. “Foram dez anos a fazer isto”, diz com um tom de reflexão. “Muito obrigado”, remata, “atacando” logo depois 'Mercy'.
Antes de cantar 'Youth', Shawn Mendes aborda pela primeira vez a situação na Faixa de Gaza que continua debaixo de fogo de Israel.
"Vou falar de uma coisa sobre a qual nunca falei antes. Sinto que o devo fazer aqui, esta noite", começou por dizer. "O que está a acontecer em Gaza parte-me o coração e tem de acabar. E transformar a dor e o sofrimento em ódio contra o povo judeu como um todo é errado. Transformar a dor e o sofrimento em ódio é errado. Não é o caminho. Acredito muito na nossa geração. Falo em nome da minha geração. E sei que temos aqui pessoas de outras gerações. Está aqui o meu pai, por exemplo. Sinto que a nossa geração tem de aprender com a sabedoria dos nossos pais, dos nossos avós. Mas também tem de aprender com os erros dessas gerações. O futuro está nas nossas mãos. Acho que temos a responsabilidade de parar com estes ciclos de dor. Temos de escolher o amor. E sou honesto. Quando dou concertos sinto que o futuro está em boas mãos. Tenho muito orgulho em fazer parte desta geração", completou, debaixo de aplausos.
A MEO Arena ainda ouviu 'Stitches', 'It'll Be Okay', 'If I Can't Have You', 'Why Why Why' e 'In My Blood'. Antes de sair do palco, Shawn Mendes agradeceu a MARO e a Lubiana que fizeram a primeira parte do espetáculo. O músico despede-se da sala enrolado na bandeira portuguesa e com a guitarra erguida aos céus.
