"Sr. Engenheiro - alegadamente um musical". A farsa musical que transforma um caso político num espetáculo de riso coletivo

    Um antigo primeiro-ministro que nunca é nomeado, canções que ficam no ouvido e uma sucessão de episódios bem conhecidos do público português transformados em sátira. O "Sr. Engenheiro - alegadamente um musical", em cena no Teatro Tivoli BBVA, promete fazer do riso uma forma de revisitar um dos casos mais mediáticos da política nacional.

    Está em cena, no Teatro Tivoli BBVA, “Sr. Engenheiro – Alegadamente um musical”, um espetáculo que condensa numa hora e meia a ascensão e queda de uma das figuras mais mediáticas da política portuguesa recente, mas que nunca é nomeada em palco. Entre canções, coreografias e um humor assumidamente satírico, a peça propõe uma viagem pela vida de um antigo primeiro-ministro, do nascimento nas Beiras ao labirinto judicial, sempre com uma lente caricatural e crítica sobre a chamada “portugalidade”.

    O encenador Rui Melo assume que o espetáculo joga com factos públicos, exagerando-os e reorganizando-os para provocar riso e reflexão. “O público conhece a história toda, mas os atores comportam-se como se estivessem a vivê-la pela primeira vez”, explica, descrevendo um dispositivo cénico que recria um palco barroco dentro do palco, com telões pintados à antiga e uma maquinaria teatral visível.

    Essa dimensão farsesca estende-se também às personagens. Ao longo da peça não há nomes, apenas funções (“a procuradora”, “o advogado”, “o amigo”) reforçando a ideia de que a história ultrapassa pessoas concretas. Ainda assim, a referência é inequívoca. O “Sr. Engenheiro” surge sempre entre aspas, uma escolha que, segundo Rui Melo, responde a um pedido da Ordem dos Engenheiros para que a produção evitasse atribuir formalmente o título à personagem.

    No centro do espetáculo está o ator Manuel Marques, que regressa ao registo musical depois de vários anos afastado do canto. O ator admite que o desafio foi total: “Foram várias camadas que se foram juntando ao longo do processo (…) depois tem que juntar a dança e o canto, mas também não ser uma coisa muito perfeitinha, ser uma caricatura”.

    A construção da personagem implicou revisitar arquivos e recuperar tiques e cadências de voz: “Há uma certa forma de falar que Sócrates tem”, explica, sublinhando que não procurou uma imitação exata, mas antes uma aproximação reconhecível. O trabalho incluiu também uma reeducação vocal, “já não cantava há muito tempo”, num espetáculo onde a componente musical é central.

    Com música original de Artur Guimarães, tocada ao vivo por uma banda em palco, “Sr. Engenheiro” aposta em canções que ficam no ouvido. Manuel Marques destaca precisamente esse lado: “As canções são muito orelhudas. A minha filha foi ver e vinha a cantar as músicas o caminho todo”. Entre os momentos mais marcantes, refere um “hino” cantado à porta da prisão, exemplos de como o humor se cruza com episódios mediáticos bem conhecidos.

    A narrativa percorre episódios que marcaram a vida pública da personagem, da ambição política inicial aos casos judiciais, passando por polémicas académicas e decisões governativas, culminando numa sátira ao sistema judicial, sintetizada numa das músicas: “vou de recurso em recurso até à prescrição final”.

    Apesar do tom leve, Rui Melo não esconde uma dimensão mais profunda: “Este espetáculo não é só sobre o Sr. Engenheiro, é sobre a portugalidade (…) pode funcionar como espelho”. A ideia é que o riso funcione como catarse coletiva, uma forma de lidar com episódios que marcaram a sociedade portuguesa. “Se eu me puder rir com isso, então sim, vou fazê-lo”, confessa o encenador.

    A complexidade técnica é outro dos traços distintivos da produção. Com cerca de 70 pessoas envolvidas em permanência em palco, mudanças rápidas de cenário e figurinos, e uma coreografia constante entre atores e técnicos, o espetáculo exige um rigor quase milimétrico. “Parece tudo muito orgânico, mas está toda a gente a sofrer lá atrás”, admite Rui Melo, apontando este como um dos maiores desafios da encenação.

    Também nos bastidores, o ambiente reflete essa exigência. Manuel Marques descreve uma equipa em permanente estado de alerta: “Não há um momento de descanso (…) estamos sempre a ajudar-nos uns aos outros. É um nível de concentração máximo”.

    A peça começa com um interrogatório da procuradora ao engenheiro, na presença do advogado, e numa das suas respostas o inquirido diz: “Eu vim das Beiras, senhora procuradora”.

    Este é o mote para a mudança de cenário, para um ambiente rural, onde nasce e cresce uma criança que cedo revela ambição política: quer ser primeiro-ministro e ter uma casa em Paris. A partir daí, a narrativa percorre episódios marcantes: a chegada ao Governo, casos polémicos como o Freeport, a licenciatura tirada ao domingo e a ideia de que “pessoas com poderes são vítimas de cabalas”.

    A ascensão culmina no cargo de primeiro-ministro, com viagens, relações internacionais e decisões políticas a cruzarem-se com suspeitas sobre a origem de rendimentos. Pelo meio, surgem referências à família, aos envelopes ou ao negócio do volfrâmio, num enredo que mistura factos conhecidos publicamente e exagero.

    A história avança depois para a apresentação de um livro “alegadamente” escrito pelo protagonista, momento que dá origem a uma das canções mais marcantes, onde se ironiza o próprio conceito de “alegadamente”: “Posso ser ladrão, mas só alegadamente”.

    O desfecho acompanha a queda: prisão preventiva, libertação e prisão domiciliária, sempre envoltas numa narrativa que oscila entre vitimização e grandiosidade. Num dos momentos mais caricaturais, o engenheiro afirma: “Claro que me comparo com Alexandre, o Grande”. Já perante a perspetiva de julgamento, o tom é de ironia: “vou de recurso em recurso até à prescrição final”.

    Produzido pela UAU, com um orçamento a rondar os 600 mil euros, “Sr. Engenheiro” estará em cena em Lisboa até 10 de maio, seguindo depois para o Porto.