Stacey Kent: "sonho gravar um tema de Sérgio Godinho"

    O novo álbum "A Time for Love" é o que move esta entrevista, que vai parar ao japonês.

    Se em português abrasileirado canta, é em português abrasileirado que conversa, como na presente entrevista. Stacey Kent é uma poliglota, que volta a mostrar o seu ecletismo linguístico no seu novo álbum “A Time for Love”.    

    Kent revolve no cancioneiro planetário sempre com um outro ângulo, um ângulo sempre seu e do seu trio. A cantora norte-americana volta a usar a língua portuguesa, no clássico brasileiro ‘Carinhoso’. Um dia, revolverá no cancioneiro português, ficamos a saber. O tema de colaboração de Sérgio Godinho com o brasileiro Ivan Lins, ‘Que Há de Ser de Nós’, está na sua lista.  

    Em quase 30 anos de carreira, nunca foi tão urgente dar amor, “a time for love”?
    Escolhi o título por causa do momento em qual estamos vivendo. Não poderia ser mais simples do que isso. É um momento importante por amor, para amar, para ficar juntos como comunidade. E o Jim [Tomlinson], meu produtor, eu marido também, saxofonista, flautista, e o Art [Hirahara], meu pianista, decidimos de fazer algo bem íntimo. A minha sensibilidade tem sempre peso, mas esta canções têm uma intensidade de amor e de convidar as pessoas se juntarem a nós. É esse o caminho, o verdadeiro caminho. 

    Este disco tem outra curiosidade: a Stacey pega numa música do Brian Wilson. Qual foi a sensação de finalmente cantar uma música dos Beach Boys, o ‘God Only Knows’? 
    Enquanto moça, eu passava a maioria do tempo a ouvir as músicas do Brian Wilson e dos Beach Boys no meu quarto, com a minha irmã. E tocávamos sempre essa música. Então, já é parte da minha sensibilidade. Mesmo sem cantar essas canções, são parte da história. Às vezes, a gente escolhe as canções no momento preciso, sem saber porquê. É sempre uma surpresa. Porquê agora mesmo? Talvez para matar a saudade de uma canção, de um momento. Eu precisava dessa canção naquele momento e é um dos momentos mais intensos no disco. Eu sentia mais cada palavra, cada momento. Estou a inspirar-me no Brian Wilson.

    É engraçado porque vocês dão uma volta muito grande à música. Dá a sensação que a música foi amadurecendo durante muitos anos na cabeça da Stacey, do Jim e do Art. É uma versão bastante personalizada. 
    Obrigada por ter dito isso. Já a tocamos há muitos anos. Ficamos adultos, maduros e sabemos o que queremos musicalmente. Tocámos essa canção durante muito tempo. Durante a turné, antes dos concertos, nós brincávamos com a canção, sem arranjo. E finalmente a versão chegou. 

    Um dos temas do novo álbum é o ‘La Javanaise’. O que tem o Serge Gainsbourg de tão extraordinário para volta e meia cantar um tema dele?
    Isso é bem pessoal. Isso é verdadeiramente parte da minha história. E você já sabe, por causa do meu avô, que me deu esse presente da língua francesa desde criança, tudo era com ele. Quando eu era jovem, eu ficava sempre com ele, aprendendo [a língua francesa]. Gostávamos muito das canções do Serge, ele é um génio, tem uma maneira de criar uma atmosfera tão forte, tão intensa. Eu e o meu avô tínhamos uma diferença de sessenta anos entre nós. O que é engraçado é que eu não podia compreender muito, porque a música é muito mais profunda do que eu poderia compreender naquela época. Eu acho que Serge Gainsbourg é parte desta história que eu crio para mim mesma, para a minha história da minha vida. O Serge Gainsbourg é uma alegria total a cantar, mesmo quando é melancólico. 

    Imagina-se, a cantar outro tema do Gainsbourg, como, por exemplo, o ‘Je t'aime moi non plus’. 
    Não sinto que essa música me empurre para a cantar. O ‘Je t'aime, moi non plus’ é parte de uma época específica. As canções que eu estou escolhendo são um pouco mais universais, sem época, um pouco mais clássicas. São canções que se podem sempre adaptar. 

    Sente-se bem a cantar em italiano ‘E la chiamano estate’, do Bruno Martino?
    Não, mas antes de ser cantora, eu era estudante de línguas. Eu estudei durante anos a língua italiana. É engraçado, assim que comecei a aprender a língua portuguesa, a minha língua italiana acabou. O Jim está a rir-se. Quando estamos em Itália, e eu tento falar com eles em italiano, o que me sai é a língua portuguesa. Mas o Bruno Martino é alguém muito importante para mim, adoro a sua música. Temos muitos temas que vêm dos anos 50 e 60.

    ‘E la chiamano estate’ é de 1965, o ano em nasceu a Stacey.
    O que posso dizer? Simplesmente, é [um tema] lindíssimo. Finalmente, é um bom momento para gravar uma canção em italiano, uma língua que é parte da minha vida. Fiquei muito feliz também com o arranjo. Eles fizeram uma atmosfera tranquila, romântica. Tornou-se bem fácil para mim entrar naquela atmosfera. 

    Como vem sendo hábito, a Stacey Kent canta em português, desta vez ‘Carinhoso’. Lembra-se a primeira vez que ouviu esta canção?
    Eu aprendi a canção quando estava na universidade. Estava a estudar a língua portuguesa, o que significa que a gente vai também estudar a música, porque a música é parte da cultura, parte da língua. É inevitável. Tanto melhor para nós. Eu já conhecia a versão por João Gilberto, que é um pouco diferente, mas eu vi o documentário, que é realizado por Pierre Barrou, “Saravah”, com o Pixinguinha. Também há uma versão lindíssima de Marisa Monte com o Paulinho de Viola. Eu acho que eles estavam fazendo um documentário ou sobre a canção ou sobre o Pixinguinha. Eu cantava esta canção no palco muitos anos antes de a gravar. Às vezes, tocamos as canções ao vivo por muito tempo, antes de as gravarmos e "Carinhoso" é uma dessas canções. É uma coisa lindíssima cantá-la em Portugal ou no Brasil, e a plateia inteira a cantar connosco… A intensidade de ter uma plateia inteira, um teatro inteiro, com as pessoas a cantarem juntas, eu queria chorar. Nada há mais lindo do que isso. 

    Já pensou cantar um fado ou um tema de música portuguesa?
    Uma canção que eu adoro, que eu queria cantar um dia, que consta na minha lista, porque tenho uma lista, é do Sérgio Godinho, ‘Que Há de Ser de Nós’. Eu adoro essa canção. Está na minha lista há vários anos e um dia vamos fazê-la. Talvez a próxima vez que voltamos aqui em Portugal para tocar, ao vivo, eu interpretaria a canção, mesmo antes de a gravar. O Sérgio também fez canções com os brasileiros compartilhando o palco. Gosto muito da voz dele, do jeito dele. Então, eu queria escolher uma canção dele. 

    Stacey Kent

    Que língua ainda não cantou e gostava de cantar? 
    Uau, que pergunta. Há várias línguas que eu queria aprender. E quem sabe se eu pudesse um dia cantar nessa língua. Eu gostaria de falar japonês, muito. Quando fazemos uma canção que já gravamos, escrita pelo Jim, ‘Bullet Train’, com Kazuo Ishiguro. Eu tenho esse sonho de cantar uma versão em japonês. Por exemplo, a nível de línguas românicas, eu não falo espanhol, mas falo francês, italiano, português, eu posso fingir falar espanhol usando a língua portuguesa o tempo todo. Então, cantando em espanhol é bastante fácil. Não quer dizer facílimo, mas fácil para mim entrar na poesia como por exemplo, em ‘Bésame Mucho’, porque já ouvindo João Gilberto cantando e compreendendo bastante bem essa língua, consigo entrar. Porque essa coisa de entrar numa música é a coisa mais importante para mim. Eu não queria nunca cantar um tema foneticamente sem ser capaz de o compreender e sem sentir as suas palavras. O sueco é uma língua que eu gostaria de aprender, também por causa do cinema, porque a Dinamarca e a Suécia têm uma história muito forte no cinema. E o Japão também. É uma frustração para mim, como estudante das línguas, de não ser capaz de entrar [nessas línguas]. Nunca pensei nisso [nessas línguas] musicalmente, mas para a minha vida pessoal, sim. E se um dia eu pudesse falar essas línguas, claro, eu as cantaria. Mas falo alemão. E eu nunca cantei em alemão, embora leia muita poesia da Alemanha e da Áustria.