Tó Trips: "hoje em dia não gosto mesmo nada de tocar alto"

    Entrevista ao guitarrista que inicia digressão neste sábado com a sua nova formação, Fake Latinos.

    A meio da entrevista feita por Zoom, Tó Trips desabafa: “Eu não queria andar mais uns tempos a tocar sozinho, porque já fiz isso muitas vezes. Já percorri o país. Já devia ter um passe para a A1 e a A2 de borla. Percorri o país sozinho só com as guitarras. Gosto de conduzir, mas prefiro estar com pessoas”. Tó Trips deixou o seu espírito solitário de jaguar em paz e procura a paz com os outros. No ano passado, reincidiu festivamente com os Club Makumba. Neste ano, surge com mais uma banda, os Fake Latinos.

    Novo desabafo de Trips. “Passo muito tempo em casa a tocar sozinho. Eu tenho família e filhos, mas às vezes essa maneira de fazer música é um pouco solitária.  Às vezes, preciso também de sair de casa e de estar com pessoas e viajar com elas”. E é com o baterista e percussionista Alexandre Frazão, o baixista e contrabaixista António Quintino e a violoncelista Helena Espvall – a formação dos Fake Latinos – que Tó Trips vai fazer algumas viagens. Neste sábado, dia 29, iniciam o seu périplo ao vivo, com um concerto no Cine-teatro de Amarante (às 21h30). Segue-se atuação no Teatro Maria Matos, em Lisboa (já com lotação esgotada), nesta segunda-feira, dia 31. 3 de maio no Fórum Cultural de Ermesinde e 28 de maio na Casa da Música, no Porto, são, para já, as outras datas ao vivo de Tó Trips & Fake Latinos.  

    O pilar disto tudo é o álbum “Dissidente”, lançado este mês. Este é já o 20º álbum em que Tó Trips é parte ativa, num percurso que inclui os Santa Maria Gasolina em Teu Ventre!, os Lulu Blind, os Dead Combo, os Ladrões do Tempo (a banda com o amigo Zé Pedro), os Club Makumba, os Timespine e os projetos a solo e em nome próprio, incluindo com o baterista e percussionista João Doce. 

    Por mais paredes que derrube, por mais que Paredes inspire, o rock & roll faz parte da espinha dorsal de Tó Trips. Quando tento escrever rock & roll, não carrego suficientemente na tecla da seta para cima, falho a grafia do & e escrevo acidentalmente rock 6 roll. Não dou pela gralha. Quando volto ao escrevinhado, achei piada ao “rock 6 roll” e deixei o algarismo estar tal como está, porque faz sentido no caso de Tó Trips. Seis são as cordas do seu querido instrumento, 66 é a estrada mítica que decide atravessar musicalmente na companhia dos Fake Latinos e do fantasma de ‘Kerouac’, entre ‘LA Chet’ e a ‘East Village’, na segunda metade do álbum “Dissidente”.     

    Filho de modista, Tó Trips passa as medidas à guitarra e desmede-as para o mundo. É Trips à sua moda, em “Dissidente”, com evocações do além, de Lisboa a Cabo Verde, de Lisboa a Havana, de Lisboa a Nova Iorque e à Califórnia, de Lisboa a Buenos Aires e Montevideu. Sempre Lisboa. Ou a sua Margem Sul, com o mar a sul. E a oeste. Sempre o oeste.

    Dizem que o seis é o número da harmonia. Mas é também a quatro que Tó Trips encontra a sua harmonia, seja nos Club Makumba, ou agora também na companhia dos Fake Latinos. Quatro é o número de estações do ano e das fases da lua. E é em todos estes estados que está “Dissidente”, ora contemplativo, ora endiabrado, com o jazz a abanar também o chão.

    Tó Trips já leva quase quarenta anos disto. Espécie de shoegazer latino, homem cabisbaixo que largou o chapéu de cartola, Trips não parece procurar um destino mas sim o próximo caminho, e depois o próximo. ‘End of an Endless Road’ é a faixa final de “Dissidente”, a faixa que deixa em aberto as próximas faixas de rodagem e mais deixas para filmes imaginários que ainda não existem. Tó Trips não é só um viajante musical. É um artesão que não tem parado de aprimorar a sua técnica. Outrora uma figura icónica do rock underground português, Tó Trips vai imprimindo as suas passadas de inquietação com uma capacidade de evocação de mistérios, numa caminhada que já toma o mundo inteiro. Tó Trips acabou de fazer o seu melhor álbum. O segundo melhor a seguir ao próximo.

    Vives sempre numa transumância. Viajas entre Lisboa e o mundo, entre a solidão e o convívio de banda. Parece que estás na montanha e no vale ao mesmo tempo. Tens essa perspetiva de ti próprio?
    Uma vez, houve uma terapeuta que me disse que eu não sabia lidar comigo. E, realmente, eu tenho uma grande inquietação. Por um lado, é bom porque me refugio no trabalho e a fazer coisas. Mas, por outro lado, é um bocado cansativo.  

    Cansas-te de ti próprio?
    Sim, sim. Eu preciso de estar sempre a fazer coisas. E como sou um gajo que gosta mais dos processos… Imagina, eu acabei o disco, mas já estou aqui a ensaiar para a apresentação do disco. Sou um gajo que já está noutra, quero estar a fazer outras coisas. É uma coisa um bocado cansativa para mim próprio, como pessoa. 

    Tó Trips

    Já levas praticamente 40 anos de música, o teu percurso tem sido sempre de exploração e de inovação. Encontras alguma coisa em comum entre o Tó Trips de hoje e o Tó Trips dos Lulu Blind?
    Sim, porque eu sou um gajo super-eclético a ouvir música. Ainda gosto de cenas pesadas.  Sou um tipo que evolui para gostar de outro tipo de coisas, mas ainda sei apreciar cenas de rock pesado ou hardcore e isso também gosto. Não vou dizer que daqui a uns tempos não faça uma coisa, se calhar não nos moldes do Lulu Blind, mas uma coisa assim como o drone ou coisas assim mais pesadas e mais experimentais.  
    Eu sou um gajo que pesquisa muito, ao nível, por exemplo, do meu instrumento. De ver outras pessoas a tocar. Eu gosto tanto de ver tocar, como de tocar. Eu não gosto de ficar como aquele pessoal, eu conheço muitas pessoas que são assim, e que até são altos músicos, mas ficaram parados no tempo ao nível de descobrir música nova. Ficaram parados no tempo quando eram novos. E eu não quero ser assim. Eu procuro sempre coisas novas.  
    Depois dos Dead Combo acabarem e o Pedro [Gonçalves] se ir embora, para fazer o luto ou uma travessia no deserto, tive de deixar de tocar à Tó Trips, ou seja, a maneira como as pessoas me conhecem a tocar, daquele Tó Trips dos Dead Combo. Ou seja, aquilo que me tornou distinto, vá. Eu fiz uma paragem nisso. Por isso é que eu fiz os Club Makumba, para tentar deixar de fazer aquilo que sei fazer ou que me era mais identitário para fazer outro tipo de coisas e descobrir outras coisas no instrumento que toco. E agora, com essa passagem do tempo, acho que este disco foi um bocado voltar a esses Tós Trips que as pessoas conhecem.

    Eu também sinto essa reaproximação aos Dead Combo, ouvindo este disco com os Fake Latinos. 
    Sim, a minha mulher Raquel [Castro, investigadora de sons e curadora de festivais] diz que é o meu disco em nome próprio que é mais chegado aos Dead Combo. 

    Eu também sinto isso.  
    O tempo apaga tudo. Ou seja, hei de me sempre lembrar dos Dead Combo, do Pedro e de todas as pessoas que já se foram embora. Mas, hoje em dia, sinto-me confortável a voltar a ser esse tipo.  

    Tó Trips

    Este álbum com os Fake Latinos parece uma continuação dos Dead Combo onde os tinhas deixado.
    Sim, sim. Uma coisa que eu pedi ao Frazão e ao António Quintino, principalmente, porque eles vêm do jazz, é que gramava que o disco que tivesse um lado jazzístico. Mas sim, há malhas aí no disco que poderiam ser de Dead Combo, porque se fosse a seguir ao fim dos Dead Combo eu não iria conseguir fazer isso. Para a minha consciência, para me sentir bem. Foi uma perda que tentei mandar para trás das costas, toda essa cena que me marcou na vida. O tempo continua, o mundo continua a girar e é preciso nós estarmos bem para fazer também as coisas bem.  

    Tu recuperaste aqui uma harmonia com essa estética. 
    Embora chame o álbum de “Dissidente”, é um disco de reconciliação.  

    Já agora, porque é que chamas o álbum de “Dissidente”?  
    Porque a música sempre me ajudou a ser dissidente. Sempre me ajudou a conhecer pessoas de várias culturas, religiões, de vários géneros. [Ensinou-me a] aceitar as pessoas como elas são. Se calhar, se não fosse a música, seria um xenófobo, como se vê nalgum pessoal por aí. E a música ajudou-me bastante nisso. Ajudou-me a lidar com pessoas de todos os géneros, de todas as cores, de todas as religiões. Eu acho que a música me tornou uma pessoa melhor. Eu fui para a música pela imagem, de ver os outros a tocar, pelos posters, pelos concertos. Quando eu andava na [escola secundária de artes de Lisvoa] António Arroio nos anos 80, eu queria ser pintor ou artista plástico, mas as médias para as Belas Artes eram muito altas e depois, entretanto, apareceu a publicidade e acabei por arranjar um emprego em agências de publicidade. Eu estive nos anos 90 a trabalhar em publicidade, depois larguei em 2000. E gosto da imagem, ainda faço umas capas de discos. Eu e o Rui Garrido devemos ser as pessoas que fizeram mais capas de discos neste país. Sempre gostei da imagem da música, seja ela roupa, penteados, posters, bilhetes, os cenários, as luzes. Sempre fui um gajo visual. A minha mãe era modista, eu lembro-me de ser miúdo e de a ver a fazer provas dos vestidos das senhoras, de os apertar, de tirar as medidas. Sempre gostei disso. Eu entrei na música através da imagem. Tu na música conheces muita gente: pessoas da rádio, dos jornais, da fotografia, da moda. A música é uma arte que une muitas pessoas. 

    Pareces uma pessoa reservada, solitária às vezes. Por exemplo, identificaste-te há dois anos com o jaguar [referência ao seu álbum “Popular Jaguar”], um animal solitário. Mas a música leva-te ao encontro das pessoas.  
    Sim, eu também estou na música, porque a música para mim também são as pessoas.  Embora a cena do dissidente é também porque estou farto desta indústria da música. Está tudo a tornar-se demasiado “entertainment”. “Entertain us, I feel stupid and contagious”, como dizia o Kurt Cobain [no tema dos Nirvana, “Smells Like Teen Spirit”]. Eu acho que isto às vezes está muito virado para o entertainment, para o show-off, e nisso eu não quero participar. Mas também a minha música não se presta a isso. 

    Foste tu que procuraste o Alexandre Frazão (na bateria), o António Quintino (no contrabaixo) e a Helena Espvall (no violoncelo) ou foi novamente um encontro fortuito? 
    O António Quintino já tinha estado com os Dead Combo, na altura da tour do “Odeon Hotel” [álbum de 2018]. O Frazão já vinha de trás [na Royal Orquestra das Caveiras, que acompanhou os Dead Combo]. E a Helena, eu já gostava imenso dela, via-a sempre a tocar com as Lantana [sexteto feminino] ou em cenas de música improvisada, na ZdB [Galeria Zé dos Bois], em vários sítios. Eu tinha um projeto com a Adriana Sá e o John Klima. E uma vez ela tocou connosco. Isso até foi num concerto dos Timespine, era uma coisa que eu tinha com a Adriana Sá e o John Klima. Eram concertos assim mais fora da caixa. Depois, convidei-a para fazer o trio com o António Quintino e com ela já no “Popular Jaguar”, porque eu tentava tocar o “Popular Jaguar” em trio.

    Tens Lisboa muito presente nas tuas paisagens sonoras. Agora que vives na Margem Sul há algum tempo, já se sente essa paisagem da Costa de Caparica e seus arrabaldes na tua música? Eu confesso-te que ainda não consegui identificar nenhuma música.
    Olha, naquele tema do “Popular Jaguar”, do comboio, o ‘Transpraia’. Uma coisa que me faz bem à saúde e à minha alma é o mar. E nós vivemos aqui ao pé da praia.  Uma coisa que costumo fazer é levar os miúdos à escola e depois vamos dar uma passeata à praia no inverno, beber um café lá, no bar dos pescadores. Desanuvio a cabeça. É o único sítio que eu conheço, ou praia ou montanha, em que eu não consigo fazer nada, onde estou em paz comigo próprio. Adoro praia mesmo, adoro. Posso estar um dia inteiro na praia sem fazer nada.  Não fico inquieto.  

    Pacifica-te então a praia? 
    Pacifica-me bastante. Pacifico-me comigo próprio. Basta só ouvir o vento e o mar, apanhar com vento na cara. Às vezes, estou sem pensar em nada, outras vezes a pensar na vida.  A praia, para mim, é um espaço de introspeção, em que fico a pensar o que que ando aqui a fazer, quem é que eu sou.  

    És mais um homem de sons do que de palavras? As guitarras são os teus cadernos de apontamentos?
    Sim, sim. Eu sou mais do som do que das palavras. Aliás, eu não sou um gajo bom a falar, comparado com a minha querida mulher que fala e escreve bastante bem. Eu falo à gajo da rua. 

    Mas és uma pessoa complexa. Levas essa complexidade para os sons.
    Eu tento contar uma história com a minha guitarra. E tento contá-la muito bem. Tento uma certa dramaturgia quando se toca, quando se cria silêncios. Sempre gostei do lado físico a tocar, em que o volume está em mim e não no amplificador. É lógico que o amplificador tem algum volume. Nos Lulu Blind, o volume estava sempre no máximo e foi onde fiz duas lesões nos ouvidos. Hoje em dia não gosto mesmo nada de tocar alto. O amplificador não me pode tirar o volume a mim, ao meu corpo e à minha intensidade perante o instrumento. Porque se o amplificador estiver muito alto, eu não consigo ter essa margem para passar o volume que está em mim para o instrumento. O que é importante ao contar as histórias na música são as dinâmicas. Estás lá em cima e depois, de repente, vens cá para baixo. Ou seja, tu podes estar a fazer a mesma frase na guitarra de uma maneira bastante violenta, a imprimir imenso volume naquilo e tu podes fazer a mesma frase na guitarra.  Mas se for assim muito baixinho, ambas as frases que são iguais, uma passa-te umas sensações, outra passa-te uma outra. Portanto, ambas podem ter a mesma escrita, contamos os dois a mesma frase. Tu dizes de uma certa maneira, eu digo outra. Se calhar, há pessoas que preferem a tua, há outras que preferem a minha, mas ambas dão um sentido diferente às coisas.

    Tó Trips

    É muito bonita a intimidade que tu tens com a guitarra elétrica ou com outras guitarras que tu tocas.  As sessões fotográficas da Ana Viotti captam bem essa tua relação bonita com as guitarras. Tal como um cineasta como o Edgar Pêra que anda sempre com uma câmara de filmar, ou um escritor que tem um bloco de apontamentos por perto, ou alguns fotógrafos que estão sempre com uma máquina fotográfica, a tua companheira é a guitarra elétrica ou a guitarra acústica. 
    Fazem parte da minha vida. Aqui em casa está sempre uma guitarra ali a caminho da cozinha, por exemplo. Há sempre uma guitarra. Sento-me ao pé dos meus filhos e dou uns toques numa guitarra elétrica, mesmo que esteja desligada. Uma vez fui tocar ao Porto, aos Maus Hábitos, na festa “O Salgado Faz Anos”. E depois eles marcaram as dormidas num hotel que é o Mouco. Eu cheguei já muito cansado. Eles diziam que eu podia levar uma guitarra para o quarto e eu disse: “peço desculpa mesmo, mas guitarras já chegam por hoje”.