Vinicius de Moraes, o ideólogo do bem-bom

    O Poetinha morreu há 40 anos. Ajudou a criar um novo género musical, o bossa nova, com que açucarou a melancolia.

    Faz hoje 40 anos que o coração de Vinicius de Moraes se desligou, na sua cidade adotiva do Rio de Janeiro. Foi poeta, letrista, músico e também diplomata e jornalista. Soube passar para a poesia a sua paixão voraz pela vida na sua forma mais excessiva. E foi o melancólico dos prazeres, o homem do whiskey e das mulheres, que inventou com o seu companheiro de tertúlias Tom Jobim um novo género, uma forma jazz e sofisticada de fazer samba, chamada bossa nova, que se consumou como berço no álbum de estreia de João Gilberto, "Chega de Saudade", de 1959. 
     


     
    Amigo de Carlos Drummond de Andrade e de outros grandes escritores cariocas, tinha uma predilecção tal por diminutivos que ficou conhecido como o Poetinha.
     
    O artista carioca nascido em 1913 foi um diplomata bom vivant e um grande poeta. A sua mãe costumava dizer que Vinicius aprendeu a cantar antes de começar a falar. Foi sem surpresa que deixou que a música se intrometesse na sua escrita, passando a escrever letras de canções e tornando-se também ele compositor e tocador de violão. Dizia de si próprio que cada vez se foi tornando mais poeta e menos diplomata.
     
    Vinicius era visto e fotografado de camisa desapertada, junto a uma mesa, com um cinzeiro, papéis a serem escrevinhados, um copo, uma garrafa de whiskey e um braço apoiado com a mão num cigarro. 
     
    Participou em muitas tertúlias musicais com o seu grande amigo Tom Jobim. Conheceram-se melhor em 1956 no Villariño, um bar de esquina de Rio de Janeiro com mesas de pedra e um charmoso balcão. Foi aí que começou a colaboração para a vida com Tom Jobim. Juntos, estiveram por trás do nascimento do bossa nova. 
     
    O letrista Vinicius e o compositor Jobim criaram variadíssimos clássicos da música brasileira, o mais universal deles todos 'Garota de Ipanema', primeiramente cantado por Pery Ribeiro em 1962.
     


     
    Vinicius tinha a sua Santíssima Trindade. Apelidava os seus parceiros principais de pai, filho e espírito santo, eram eles Tom Jobim, Carlos Lyra e Baden Powell.
     
    Carlos Lyra, por exemplo, entrou na vida de Vinicius de Moraes quando tocou à campainha da casa do poeta por causa de músicas suas que precisavam de letras. Este primeiro encontro deu-se em 1961. Carlos Lyra deu-lhe a fita com as quatro músicas, duas delas 'Você e Eu' e 'Coisa Mais Linda', a última uma ode às mulheres, a grande paixão de Vinicius. O Poetinha, tal como era conhecido, esteve casado com nove mulheres diferentes. Como chegou a escrever, "não sabia amar sem liberdade".
     


      
    Torcedor do Botafogo, Vinicius escreveu um poema ao futebolista Garrincha, o "anjo das pernas tortas". Completamente desligado de bens materiais, excepto uma pintura de um retrato seu, Vinícius de Moraes era um conviva nato, sempre disponível para os outros, um verdadeiro agregador, com a porta de sua casa sempre aberta e com um coração cheio de generosidade.
     
    No início dos anos 70, consegue juntar-se a outro grande letrista, o jovem Chico Buarque, quando este preparava as canções do álbum “Construção”. 'Samba de Orly', por exemplo, é praticamente todo feito por Chico Buarque desde a composição à letra, tirando uma frase, que Vinícius quis escrever só para se infiltrar como seu parceiro. Essa frase seria censurada, mas a parceria já ninguém tirava a Vinicius. O Poetinha consegue ter o seu nome como co-autor de quatro das músicas do grande álbum de Chico Buarque, “Construção”. 
     


     
    Além de ter sido um dos maiores poetas e letristas da língua portuguesa, ligou-se também muito ao nosso país. A primeira vez que Vinicius de Moraes visitou Portugal foi em 1939. No final dos anos 60, vem diversas vezes. Participa numa grande tertúlia musical na casa lisboeta de Amália Rodrigues, em 1968, onde se cantam fados e se lê poesia, com a participação também de Ary dos Santos e da poetisa Natália Correia. Essa noitada em Lisboa está imortalizada no álbum "Amália/Vinicius", com narração do escritor David Mourão-Ferreira e que só no Brasil vendeu mais de meio milhão de cópias.
     

    Nesse disco, Vinicius de Moraes escreve mesmo um fado, que Amália canta nessa noite de Dezembro de 1968, de nome 'Saudades do Brasil em Portugal'. Vinícius de Moraes fez ainda em 1969 um recital de poesia numa livraria de Lisboa, que ficou gravado em disco. E ao longo das suas vindas a Lisboa nos anos 70, teve como grande companheiro boémio o actor Nicolau Breyner.   
     


     
    Quando em 1968 teve que enfrentar a juventude salazarista à saída de um espectáculo seu num teatro de Lisboa, esperou que a vaia contra si terminasse, para então lhes recitar o seu poema Pátria Minha.
     


     
    No ano do 25 de Abril em Portugal, em 1974, Vinícius escreveu o tema 'As Cores de Abril', que se não é sobre a Revolução dos Cravos, parece. Quem o canta é Toquinho.
     


     
    Nos espectáculos, Vinícius de Moraes estava sentado de microfone na mão, no centro do palco, rodeado pela sua corte de cantores e instrumentistas. Com um olhar vigilante, sussurrava as suas letras que os outros cantavam. Um deles era Toquinho que foi o grande colaborador de Vinícius nos seus últimos dez anos de vida. Começaram a trabalhar juntos numa série de actuações na Argentina e no Uruguai em 1970 e 1971. É em 1971 que começam a criar músicas juntos, durante uma estada na zona de Bahia, com Maria Bethânia. 
     
    O Poetinha gozou a vida até onde pôde, fumando e bebendo e curtindo. E ao seu lado, até ao último dia da sua vida esteve Toquinho. Esse dia foi há 40 anos, a 9 de Julho de 1980, tinha Vinícius de Moraes 66 anos.
     


     
    Sem a figura paternal do seu amigo, Toquinho procurou no vazio os restos que tinha do trabalho autoral de Vinícius. Tal como Toquinho diz, quando levantou voo sozinho tinha Vinícius com ele. Toquinho fez do borrão da 'Aquarela' a gaivota onde voou na “imensa curva norte-sul do planeta”.
     
    'Aquarela' é das canções mais magistrais de Toquinho, com uma letra lindíssima do seu mestre Vinícius de Moraes, publicada em 1983, três anos depois da morte do Poetinha.